Tempo

A CHUVA

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Há um rio no canto da rua
(brilham úmidos os postes)
amarelo refletido no chão.

Tudo agora é o ronco da noite,
pintura em ruídos selvagens.

A natureza brinca no escuro
e ainda mal temos fôlego
para entender vidas rompidas.

Palavras se perdem,
amores se cansam,
mas a crueldade do tempo
é o presente que nunca passa.

Assim, verei
nesses incontáveis
dias sinceros, o sol
morrer e nascer
sob minha pele.

Verei nesses instantes,
nossas vidas desaguando
em rios de lágrimas e rua.

Verei a história diluindo
o sangue turvo em
vontade espessa.

E pela manhã, o vento fará
nossas roupas de bandeira,
anunciando a chegada
da próxima estação.

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PERFIL CRONOTÉCNICO: TEMPO, TÉCNICA E PERSONALIDADE

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Foto minha (usando o celular) tirada por minha irmã de 9 anos (com o celular) para postar nas próprias redes sociais.

A relação com o tempo é um aspecto fundamental na formação cognitiva humana. A divisão social criada entre “atrasados” e “pontuais” é uma prova disso. Ainda que esses termos sejam vistos apenas como defeito/qualidade, dizem diretamente sobre como cada tipo de pessoa entende e organiza suas experiências. A adoção da relação temporal como critério base de avaliação psicológica facilita, por exemplo, o desenvolvimento de estratégias para sujeitos de atenção predominantemente flutuante – os hipocondríacos podem ler: portadores de déficit de atenção. Nesse caso, o atraso nos compromissos e, consequentemente, na aprendizagem, não são efeitos colaterais, mas a própria temporalidade de quem percebe em maior quantidade e precisa de mais tempo para pensar. Mas isso não basta. Considerando a presença massiva da tecnologia moderna em nossas vidas, torna-se necessário também identificar o tipo de relação existente entre essa temporalidade e os objetos técnicos aos quais esse sujeito tem acesso (Facebook, Instagram, YouTube, Spotify: o tipo e a quantidade de redes sociais nas quais se está inserido influencia diretamente no funcionamento da atenção, memória, linguagem e outros processos cognitivos). Isso que chamo aqui de perfil cronotécnico é só um dos muitos novos critérios que a Psicologia precisará investigar se quiser produzir teorias da personalidade que incluam de maneira mais profunda o que hoje tem peso dobrado na formação e mudança da personalidade de todos.

Pulp Fiction, tempo e cotidiano

Pulp Fiction

Este é nada mais (porém não apenas e não menos) que um filme sobre o cotidiano, sobre o tempo. As infindáveis discussões sobre a conexão dos fatos, pessoas, objetos, ações e reações nele presente compõe uma dimensão semântica inerente a qualquer obra, a qual ganha importância fundamental, não por si mesma enquanto conteúdo, mas como meio de passagem. Isso porque estas servem como agentes de relevo topográfico para a narrativa. Há um ritmo claramente demarcado: longos momentos de movimentações quase inertes, seguidos de outros, mais curtos e intensos, e para dizer no mínimo, peculiares. Esses diferenciais tão contrastantes – uma discussão sobre a qualidade de uma massagem nos pés se alterna com uma série de mortes a queima roupa – por si só já poderiam indicar mudanças em uma linha de acontecimentos e causar o encantamento pela mistura bem encadeada dessas cenas, contudo, há mais que isso, ou melhor, menos. O desenrolar das diferentes histórias não se sustentam pelo o que ocorre nelas, mas sim pela entrada em cada novo braço de tempo. Ainda que os fatos recorrentemente vistos como marcantes sejam impressionantes, estes se tornam apenas parte de uma fina montagem de fortuidades que dão o seguimento da obra. Pouco interessa o momento de tensão em que Vince se vê na única chance de salvar a vida de Mia, e a sua própria, ao ter de acertar uma agulha, talvez quase maior que a seringa que a carrega, no peito da nova mulher de seu chefe. Interessa ai um evento quase desprezado, ou tomado como uma obviedade: Mia encontrou o saco de heroína, causador de sua overdose, ao ser confundido com cocaína, no bolso do casaco que Vince havia deixado com ela.

Mia e a Heroína

Este momento, um simples achado dentro de um bolso, fez com que um rumo completamente novo se instaurasse no percurso dos personagens envolvidos. E novo aqui não quer dizer sem relação nenhuma com qualquer coisa exterior ou anterior ao ocorrido, quer dizer uma movimentação não esperada dentro do espectro de elementos usual e explicitamente considerados. E isso não se dá apenas nesse caso, mas em todas as múltiplas narrativas do filme. É um relógio esquecido que faz com que Butch passe de uma fuga angustiada para um porão imundo ao lado de Marcellus, que ao fim do episódio, perdoa sua dívida, fazendo com que a mesma fuga seja transmutada em uma tranquila partida em cima de uma Chopper junto a sua delicada e francesa namorada. É um tiro tão acidental que beira a comicidade que faz com que Vince e Jules, de uma simples saída de mais um serviço bem executado, tenham de lidar com a parte mais sofisticada de um trabalho usualmente sujo – o nome “O Lobo” não aparece por acaso.

Butch e o Relógio 3

Butch e o Relógio 4

São os múltiplos tiros acidentalmente mal sucedidos disparados contra a dupla que fazem com que o desfecho quase previsível da cena final no café, onde dois assaltantes inexperientes se deparam com um exímio atirador como Jules, torne-se inesperado. Os exemplos formam uma imensa lista, mas o objetivo aqui não é a quantificação. A questão passa por observamos que, apesar de todas as tentativas dos personagens de esquematizar o curso dos fatos, a cada nova mínima ruptura um novo caminho, uma nova história se coloca a partir da demanda desses cenários por outras atitudes, posturas, pensamentos, reações e relações.

Essa dinâmica aponta para o encadeamento do próprio tempo na medida em que busca pensá-lo não como uma linha contínua e progressiva de acontecimentos, mas como uma série de rupturas alucinadas que jogam intenções, trajetórias e identidades em seu curso que, ao mesmo tempo em que mantêm ligações com o passado, se amarra com o presente constantemente renovado para apontar na realidade a constante criação da realidade que faz com que novas acontecimentos possam se desenrolar.

Tiro Acidental

Tudo poderia se tratar de uma mera ficção se o mesmo não fosse verificável fora da obra. Há menos por se tratar de um filme sobre o cotidiano. Ainda que esta afirmação possa soar forçosa, basta um exercício de percepção um pouco mais apurado para, ao menos, considerá-la. No que uma carteira esquecida na mesa do restaurante pode transformar uma viagem? Como uma palavra mal entendida pode transformar o rumo de uma conversa? O mesmo, exatamente o mesmo, se passa a cada mínimo instante de nossas vidas. Tal compreensão permanece inaudita talvez por um certo tipo de ritmo perceptivo que, por comodidade, caminha a passos mais largos, fazendo com que identifiquemos de maneira muito menos sensível as mudanças dos braços temporais. A astúcia de Tarantino aí foi a de trazer um cotidiano extremamente incomum para a maioria do público. A escolha por narrar a saga de um homem que se vê desestruturado por esquecer sua carteira poderia não servir ao que o diretor pretendia abordar, mas ao se valer do cotidiano de assassinos, traficantes, usuários de drogas “pesadas”, sádicos e lutadores frustrados (o que por si só já renderia um filme chamativo) – tornando-0, muito provavelmente, pouco atraente para aqueles que já vivem nesse meio – o diretor deu força ao diferencial existente entre as mudanças de cada série de acontecimentos, retirando assim a banalidade do cotidiano e mostrando que o tempo é, de fato, o cotidiano da vida.