Rosto

VI

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Desenho: Slimesistren

Sei que ninguém ainda
escreveu sobre teu rosto
e mesmo que o tenham feito,
devo convencê-la de que esta
é a primeira vez; de que o que vejo
se encontra num futuro impossível
sem o que estou prestes a dizer.

Sou agora um estranho quebrando
ao menos um de seus espelhos,
dele emerge um feixe de trevas
que revela o fundo das coisas.

Em teu rosto elas podem vencer
com a beleza que nunca teriam
se por ele não tomassem força.

Como penso na carne macia
desse delicado veículo.

Basta que me cruze de frente
para que outras feições
tornem-se distantes.

Teu grosso lábio superior
afaga os dentes quando sorri
e enquanto se acariciam
busco lapidar em teu nariz
a perspectiva mais concreta.

Penso que inexistam milagres
e como qualquer existência
esse dom há de crescer
junto às incertezas do amor.

Por isso, escrevo tua beleza
na língua das bocas que
mastigam esse poema.

Escrevo fazendo dos olhos
um par de crianças perplexas.

Para que saibas que teu rosto
foi, ao menos por um instante,
o que não poderias saber.

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