Poesia

O ARTISTA

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É preciso, afinal
nascer vencido pela solidão.

Eu poderia lhes dizer sobre
a coragem do esquecimento.

Poderia lhes dizer ainda sobre
o inconstante corpo dos poetas.

Mas o louvor da impiedade
é para poucos.

E quem, afinal
sabe o que isso significa?

Não há hinos ou bandeiras
nos recantos obscuros da verdade,

apenas idiomas em urros
desabados sob o tempo do cruel.

Como sofrem essas
lindas bestas em criação.

Tudo, afinal
para sentir algo se dizendo.

E o que é dito persegue
as alcunhas torcidas do artista

como cobras camufladas
num pasto alagado.

Não há fuga
para o belo.

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A LIBERDADE

Não há o que dizer.
Sou hoje o rastro desse segredo.
Meu corpo é uma despedida
na alvorada da miragem.
Penso na noite interminável.
Não há nada a dizer.

O tempo não precisa da vida,
por isso perder é tão sublime.
Não mais lutar com a memória.
Tenho em seres esquecidos
meus amores mais profundos.

Aprender o esquecimento
da próxima liberdade,
pois nisso ela se resume:
saber sem não mais lembrar.

Fernando Pessoa e a sabedoria no sofrimento

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Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas na da nossa mesma alma, é o principio da sabedoria. Considerar isto em pleno meio dessa angústia é a sabedoria inteira. No momento em que sofremos, parece que a dor humana é infinita. Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais que ser uma dor que nós temos.

—  Fernando Pessoa (Livro do Desassossego)

A carne da era

Sou eu os esquecidos,
carne da própria era,
corpos cicatrizados
pelo sal da insurgência.

Uma vida entregue
a desmerecimentos,
espelhos estranhos
e duplos insensíveis.

Nossas horas:
chacinas esdrúxulas
na tediosa aurora
de homens comuns.

Soam ledos os enganos
que nos encurralam,
em todos os fins
vejo o triunfo da obra.

E os séculos se tornam
a passagem das bocas
repetindo tais feitos
nos lugares onde falam.

Desvenda

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Em teus frutos maduros
reencontrei esclarecidas
muitas verdades frágeis.

Cantadas, ainda que digam
aos ouvidos do povo,
já não mais as lembro.

Por assim esquecer
cubro-a com cinzas
que protegem a brasa.

Assopro a primeira boca
e vejo nascer a luz:

claro permanece teu rosto,
monumento forjado pelo sorriso.

Menina rara, o vento
domará nossos segredos.

UM

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O que existe e sabe
bebe a própria solidão
em pétalas angustiadas.
Cada ser é a declaração
infinita do esquecimento,
terras antigas desaguadas
em filhos novos.

Nomes, datas, planos:
carne consumida pelo tempo.
Sabidas são as cicatrizes.

Brindar a face do destino,
assim os dias amanhacem
e a história entrelaça
esfinges sólidas.

Há música em bocas vazias,
cantos entoados por pedras,
chamas consumadas
nos veios de cristais.

O calor em fuga
ilumina a rachadura dos corpos
e as palavras brotam cruas
do sal escorrido na pele.