Poema

Fernando Pessoa e a sabedoria no sofrimento

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Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas na da nossa mesma alma, é o principio da sabedoria. Considerar isto em pleno meio dessa angústia é a sabedoria inteira. No momento em que sofremos, parece que a dor humana é infinita. Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais que ser uma dor que nós temos.

—  Fernando Pessoa (Livro do Desassossego)

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A carne da era

Sou eu os esquecidos,
carne da própria era,
corpos cicatrizados
pelo sal da insurgência.

Uma vida entregue
a desmerecimentos,
espelhos estranhos
e duplos insensíveis.

Nossas horas:
chacinas esdrúxulas
na tediosa aurora
de homens comuns.

Soam ledos os enganos
que nos encurralam,
em todos os fins
vejo o triunfo da obra.

E os séculos se tornam
a passagem das bocas
repetindo tais feitos
nos lugares onde falam.

Desvenda

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Em teus frutos maduros
reencontrei esclarecidas
muitas verdades frágeis.

Cantadas, ainda que digam
aos ouvidos do povo,
já não mais as lembro.

Por assim esquecer
cubro-a com cinzas
que protegem a brasa.

Assopro a primeira boca
e vejo nascer a luz:

claro permanece teu rosto,
monumento forjado pelo sorriso.

Menina rara, o vento
domará nossos segredos.

UM

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O que existe e sabe
bebe a própria solidão
em pétalas angustiadas.
Cada ser é a declaração
infinita do esquecimento,
terras antigas desaguadas
em filhos novos.

Nomes, datas, planos:
carne consumida pelo tempo.
Sabidas são as cicatrizes.

Brindar a face do destino,
assim os dias amanhacem
e a história entrelaça
esfinges sólidas.

Há música em bocas vazias,
cantos entoados por pedras,
chamas consumadas
nos veios de cristais.

O calor em fuga
ilumina a rachadura dos corpos
e as palavras brotam cruas
do sal escorrido na pele.

 

GARGANTA

A fenda, repetindo o ardor das pupilas
espanca o fundo convexo das palavras.
Indícios mínimos, frestas bizantinas,
quadros enrugados, coifas cupulares;
lá, onde como vestir umbigos alheios
sangram mulheres novas pelo restolhal.

Cantos territoriais: uivos em desolação,
ventos claustrofóbicos de horas em fuga.
Nesses rituais, evocações proliferantes,
corpos escarpados por cercas vivas,
destroçadas pelas farpas concertinas.
Tudo urra e assim se aprende a falar.