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PENSAMENTO E DOMÍNIO

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Pintura: Odyr Bernardi

A história dos grandes homens paira entre a busca do amor, o questionamento da loucura e a luta pela solidão. Quem possui outros motivos, ainda não se tornou um deles. Tendo abandonado a religião e a superstição por completo, o desejo pela vida se torna tão ambíguo quanto a morte. O suicídio, imediato ou prolongado, será sempre uma opção para acabar com a dor, mas nunca com a vida. Ela permanece nos quadros, livros e poemas. Estes frutos da experiência são, no entanto, apenas rastros da inteligência, o retorno de uma lança fincada pelo pensamento. E é por meio dele que o homem afirma seu domínio.

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O AFETO É UM DOMÍNIO DE AFIRMAÇÃO

Durante algum tempo o lugar do sonho havia se perdido. Eu não poderia admitir a existência de alguma dimensão da vida que, uma vez impondo sua existência, não servisse a meu propósito ou, ao menos, não colocasse um novo – permitir isso seria separar a realidade em dois. Que ele fazia parte de um processo de elaboração isso já era sentido, mas se ele passava por aí, era preciso torná-lo uma prática mais precisa: pensamento (minha única realidade e propósito).

Nessa noite foi possível acompanhar a fundação de um novo lugar por esse esforço. Ao me debruçar, enquanto acordado, sobre a questão do medo, o sonho a continuou. Mas se havia algo inédito, era o fato dessa compreensão não surgir depois de acordar, a partir de uma reflexão sobre imagens, mas durante a experiência onírica, como problema. Havia parado de sonhar e, finalmente, começado a pensar dormindo. O tema em questão se apresentou na proliferação encadeada de diversas afirmações afetivas: água negra explodindo as laterais do navio, vale turvo de alturas desiguais, risco solitário de crianças. E, de repente, ao ser literal quanto a isso, a poesia da linguagem se desvela. Não por desejo, mas pela necessidade de ser mais preciso. É certo que imagens são recrutadas. Por participar da dimensão física, a voz precisa dialogar com elas. Mas o afeto não é uma imagem, funda um tipo de realidade que não é o da relação – por mais que esse ainda seja um recurso improvisado para explicá-lo. O afeto é um domínio de afirmação e pensar é agir nesse domínio.

Uma criança perguntou se esse era um texto ou um poema. Perguntei o que ela considerava ser cada uma dessas coisas. A resposta foi que texto é uma história de ações, e poesia, uma expressão de afetos. Disse que estava me esforçando para viver antes dessa e de qualquer outra pergunta. Estava aprendendo a afirmar.

LIVRO DAS FACULDADES HUMANAS: 1ª AFIRMAÇÃO, VERSÍCULO I

Nietzsche, o ateu, foi o primeiro filho civilizado do Pensamento, descobrindo a vergonha no nascimento de seu mundo. Covardia é matar sem estar pronto para morrer. Foi assim que ele viu o senhor de sua era, Deus, cair pelas mãos do homem. As lágrimas que escorreram de seu rosto nunca carregaram a vontade de que nada fosse diferente. Elas apenas gritavam: vocês não sabem o que é a vida, confundem morte com negação e agora serão escravos de si! Lutarão curvados pela lembrança da doença ao invés de desejar de pé a dor como cura pelo esquecimento. Essas foram as únicas palavras proferidas naquele enterro vazio.

GÉRMEN

Sob o sol, acaricio a folhagem
como pelo nas costas de um animal,
a existência está viva
ruminando números e palavras
na voz de cada solução.
Vejo corpos sendo
reposta do problema.

Essa fertilidade
é adubo virando terra
e quem, afinal, tem coragem
de ser o próprio alimento? Criar raízes
respirando como guelras?

Mas não sou um peixe,
tampouco uma planta.
Sou um homem e por isso é possível
e preciso ir mais longe.

Quantos banhos de civilidade
após o nascimento primitivo.
Quem precisa de limpeza permanente,
além de seres permanentemente sujos?

Sei o que acontece
e no dia em que disser
não estarei mais aqui,
serei somente
memória do esquecimento:
saudade.

Habitarei fugaz e com frescor
os campos onde não se carrega
qualquer lembrança,
onde as pragas
(doenças da pergunta)
serão curadas
pelo plantio sem colheita
da afirmação.

Pois aqui não existem mãos
apenas pés
os órgãos que chegam primeiro
tocando sempre o mesmo lugar.

O INIMIGO COMO CONTINUIDADE DO ENTENDIMENTO

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Francisco de Goya – Saturno devorando um filho (1819-1823)

Entender um problema significa afirmar as razões para fazer guerra com aqueles que se debruçam sobre o mesmo problema. Em outras palavras, trata-se criar um contexto no qual possam surgir inimigos (onde se inclui também aquele que pensa). Mas ao contrário da concepção corrente de inimigo, que o presume como alvo de negação por meio de sua destruição, aqui ele serve como meio de afirmação e continuidade, dimensões que só podem se completar verdadeiramente por meio do movimento de antropofagia, ato que, ao contrário da morte, faz durar a existência de um corpo por outros.

Nessa perspectiva, o inimigo é o aliado no enfrentamento de um problema, uma vez que superá-lo significa dar continuidade ao movimento de compreensão do outro ao incluir sua posição como via de afirmação da continuidade da guerra, isto é, da possibilidade da produção de outros infinitos contextos onde os vínculos se estabeleçam segundo a afirmação do outro e não da negação (ausência de canibalismo).

Disso, pode ser retirado um critério de avaliação sobre a densidade do entendimento: desconfie de si e daqueles que dizem entender algo sem ter desenvolvido outra coisa. Desconfie ainda mais quando, havendo outra coisa, ela não tenha o único objetivo de se tornar o inimigo de outro corpo que possa comê-la. Nesses casos, há no máximo curiosidade e negação, covardia em relação à luta. A guerra, ou caso se prefira, a vida, pertence ao entendimento e à afirmação, coragem e vontade de continuidade por outros corpos.

MÁQUINA-PENSAMENTO

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Motor [capa alternativa para a faixa “Theory of Machines” – Ben Frost]

Criar significa: conseguir ser mais preciso. Essa é a necessidade que leva à invenção de ferramentas. Sendo assim, Pensar é, antes de tudo, entender e, consequentemente, desenvolver as ferramentas que levam à construção do que se Pensa. Qual o nome dado a uma ferramenta que produz ferramentas? Uma máquina. Nesse caso, uma Máquina de Guerra, que só será útil na luta por aquilo que só pode ser alvo de conquista e nunca de posse: o Futuro.

[Monografia] GÊNESE, CONSERVAÇÃO E DIFERENCIAÇÃO PERCEPTIVA – SÁVIO DE ARAÚJO (2016)

ARAÚJO, Sávio de. Gênese, conservação e diferenciação perceptiva. O potencial inventivo da vida como via produtiva de uma Psicologia criadora. 2016. 53 f. Monografia (Bacharelado em Psicologia). Instituto de Humanidades e Saúde, Universidade Federal Fluminense, Rio das Ostras, 2016.

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Sumário Monografia

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia do Instituto de Humanidades e Saúde do Campus Universitário de Rio das Ostras da Universidade Federal Fluminense (UFF), como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia.

BANCA

Prof. Dr. Danilo Augusto Santos Melo (Orientador)
Prof. Dr. Johnny Menezes Alvarez
Prof. Dr. Márcio Luiz Miotto

RESUMO

O presente trabalho tem o objetivo de discutir os processos de constituição da percepção a partir da leitura dos conceitos de Henri Bergson, investigando, através dos procedimentos de pintura de Francis Bacon, maneiras possíveis de manipular ativamente esse processo em prol de uma experiência sensível de criação que se diferencie daquela crivada utilitariamente por nossos hábitos e representações. Buscamos compreender ainda, por meio dos conceitos de Inteligência (Bergson) e Pensamento (Gilles Deleuze), como essas diferentes abordagens da realidade atuam nas relações do sujeito, bem como no funcionamento de suas faculdades, identificando assim o pensamento como via possível para um exercício inventivo da vida menos constrangido, o que por sua vez, torna a discussão da temática relevante para a proposta de uma Psicologia que pretenda estar em consonância com o processo criador da realidade.

Palavras-chave: percepção, Arte, inteligência, pensamento, criação, Henri Bergson, Francis Bacon, Gilles Deleuze.

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digitalização: arquivo virtual (original)
cor: preto e branco
formato: PDF (A4)
paginação: 1 página por folha (vertical)
título: Gênese, conservação e diferenciação perceptiva. O potencial inventivo da vida como via produtiva de uma Psicologia criadora
autor: Sávio de Araújo
idioma: Português
páginas: 51
ano de edição: 2016