Mulher

VI

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Desenho: Slimesistren

Sei que ninguém ainda
escreveu sobre teu rosto
e mesmo que o tenham feito,
devo convencê-la de que esta
é a primeira vez; de que o que vejo
se encontra num futuro impossível
sem o que estou prestes a dizer.

Sou agora um estranho quebrando
ao menos um de seus espelhos,
dele emerge um feixe de trevas
que revela o fundo das coisas.

Em teu rosto elas podem vencer
com a beleza que nunca teriam
se por ele não tomassem força.

Como penso na carne macia
desse delicado veículo.

Basta que me cruze de frente
para que outras feições
tornem-se distantes.

Teu grosso lábio superior
afaga os dentes quando sorri
e enquanto se acariciam
busco lapidar em teu nariz
a perspectiva mais concreta.

Penso que inexistam milagres
e como qualquer existência
esse dom há de crescer
junto às incertezas do amor.

Por isso, escrevo tua beleza
na língua das bocas que
mastigam esse poema.

Escrevo fazendo dos olhos
um par de crianças perplexas.

Para que saibas que teu rosto
foi, ao menos por um instante,
o que não poderias saber.

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IV

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Ao lembrar daquela mulher
lembro da cidade onde sucumbimos
ao sangue de nossas horas.

Da revoada ao leito do mar
rugindo a garganta
da noite desperta.

No caminho de sua casa
consumíamos as calçadas
para ver raízes brotando.

Quantos impedimentos imputei,
e mesmo assim o desejo lambia
descontrolado a lâmina dos segredos.

E se havia um mar, havia um rio,
calmo como meu medo
pela fragilidade de seu corpo.

Calmo como a transformação
desse medo em um esparso
crepúsculo anil.

Em pouco tempo segui seu rastro
pelas montanhas. Soube onde
nascia aquele rio.

Escorríamos de volta.
Aquela mulher e as águas da cidade
tornaram-se a mesma coisa.

Juntos tomávamos banho
nessas águas, até que se formasse
o silêncio naquela cidade.

I

Por entre dunas incertas
o horizonte dos sexos
perpetua o êxtase.

Buscando explicações
caminhei desde a infância
até ser possuído pelo prazer
em primeira instância das mulheres.

Nada é mais importante.
A raiva, o cuidado, a loucura.
Tudo passa por essa trilha que paira
em zonas de hálito quente.

Mesmo em esquinas sujas,
onde encontros furtivos
decantam lágrimas,
elas seguirão indivisas
em busca do ouro cruel.

Encrustado nas pedras
de jóias antigas, ele é o adorno
de clavículas ingênuas, pois
é na pele prensada pelo tempo
que o segredo subsiste.

Elas viram o queríamos
e era tão pouco. A conquista é
nosso dom. Sem isso estamos
inférteis e condenados.

1 tomar o território, 2 romper fibras
nutridas por outros. Mastigo, bebo
e cuspo o suco do levante
no rosto dos fracos.

Há um embate e duas vitórias.
Elas sabem, eu sei. Precisamos vencer
sabendo quem somos, sob o risco de
bradar a derrota.

Essa lama nos pertence,
seguiremos cruzando juntos
as gotas em confronto
abaixo da cintura.

DÁDIVA

A mulher é algo que dorme.
Existem homens que sabem,
outros não. No sono lento
do repouso entregue, despertam
seus vincos como um eco distante
de tecidos molhados batendo
sobre a terra coberta de sangue.

Como duram as noites
em que espreito esse segredo,
completamente solitário e
exposto àquelas que, por
ignorarem o fluido ser,
têm o olhar perdido
de um lago seco.

Jorro e prazer. É também
nisso que a mulher se explica.
Um vaso de ouro rachado
por frestas nuas. Dois corpos
úmidos: suor primeiro, lágrimas
depois. O sagrado líquido
revelado no gozo interior.

E quando há amor à mulher
uma irreversível ruptura do tempo.
Os passados do amante e
da mulher não mais saberão
a quem pertencem. E por isso
lembro, pois se lembro amo, e se
amo digo para lembrar quem somos.

Dorme mulher, dorme
e escorre nos sonhos alheios.
Como homem que sabe
quero ver teu rosto em fuga
e trilhar a conquista longa
que me arrasta todos os dias
pela correnteza das águas.

OUTRA

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Desenho: Rinus Van de Valde

Triunfamos pelo suor.
Vejo a mancha do sexo
vencendo nossos rostos,
o escorrer de um banho raro.

Teu sono me desperta,
por isso escrevo como
um sonho lento perseguindo
a fome do teu corpo.

Porque amar
é espera e travessia,

força impetuosa
que cresce devagar
e arrebenta a semente.

Quero-te sem nomes
para ter em presença
o dom do esquecimento.

Mais uma vez
outra mulher.