Macaé

RUAS DESERTAS

Os flamboyans
da Monteiro Lobato
balançam enquanto
gatos de outras casas
saem para caçar.

Em uma noite
fresca como essa
podemos levitar
pelas ruas macaenses.

Desertas, calmas,
prestes a amanhecer.

Depois das prostitutas
e o cheiro de peixe,
viaduto e luzes de areia.

Sinais amarelos,
bares fechados,
letreiros escuros,
adolescentes na orla.

Ainda não basta, a água
precisa descansar.

Imboassica:
banheira e espelho
dessa noite.

Os pedalinhos
nos chamam,
mas estão trancados
como sempre.

O topo dos bares
está vazio,
lá sentamos
para nos anestesiar.

As horas saltam
e o carro desliza
pela via expressa.

No parque industrial
estamos num terreno liso
da altura de um prédio.

As luzes acesas
brilham daqui,
Detroit nunca esteve
tão perto.

Inóspito,
nenhum grito
seria ouvido.

Farol ligado,
num ritual
tudo termina.

Nessa terra
voltar é sempre
mais difícil que ir.

Anúncios

[LIVRO] Problemas globais, enfrentamentos locais e a universidade Pública / CRR Macaé – Erotildes Leal & Ruth Escudero [orgs] (2017)

LEAL, Erotildes Maria.; ECUDERO, Ruth (orgs). Problemas globais, enfrentamentos locais e a universidade pública. O centro regional de referência em álcool e outras Drogas da UFRJ Macaé e outros projetos extensionistas. Universidade Federal do Rio de Janeiro – Campus Macaé. Macaé, RJ: 2017. 380 p.

Download (2 MB) <

> Leia online <

Sumário Problemas Globais 1Sumário Problemas Globais 2Sumário Problemas Globais 3

Esta coletânea apresenta questões que atravessaram o trabalho desenvolvido pelo Centro Regional de Referência para formação de profissionais que atuam com usuários de álcool e outras drogas no SUS e SUAS* – CRR – UFRJ Macaé, projeto realizado através da parceria da UFRJ e Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas –SENAD/Ministério da Justiça. A desafiante temática das drogas como questão de saúde pública, estruturante para a construção das atividades do CRR– UFRJ Macaé, foi o eixo organizador do livro. Dois outros temas tratados aqui foram centrais para o desenvolvimento da atividade do CRR: o papel da universidade e dos projetos extensionistas.

Formar profissionais capazes de abordar a temática das drogas como questão da saúde pública, em toda a sua complexidade, a partir da universidade, mas com o olhar voltado para os territórios vivos e reais onde o fenômeno se apresenta com a força do seu colorido local, exigiu reflexão sobre o papel da própria universidade e sobre a função dos projetos extensionistas.

***

Capítulo 12: o lugar do discente na extensão acadêmica: espaço de formação e autonomia. O CRR– UFRJ Macaé – Relato de experiência.

No capítulo escrito por Maria Clarissa Silva e eu, refletimos sobre a extensão universitária enquanto espaço de formação, partindo da análise da experiência dos alunos de graduação como monitores do Centro Regional de Referência em Álcool e outras Drogas da UFRJ Macaé.

SILVA, Maria Clarissa; ARAÚJO, Sávio de. O lugar do discente na extensão acadêmica: espaço de formação e autonomia. O CRR – UFRJ Macaé – Relato de experiência. In: LEAL, Erotildes Maria; ECUDERO, Ruth (orgs). Problemas globais, enfrentamentos locais e a universidade pública. O centro regional de referência em álcool e outras Drogas da UFRJ Macaé e outros projetos extensionistas. Universidade Federal do Rio de Janeiro – Campus Macaé. Macaé, RJ: 2017. 380 p.

> Download [capítulo] (3 MB) <

_________________________________________
digitalização: arquivo virtual (original)
cor: colorido
formato: PDF (A4)
paginação: 2 páginas por folha (horizontal)
título: Problemas globais, enfrentamentos locais e a universidade pública. O centro regional de referência em álcool e outras Drogas da UFRJ Macaé e outros projetos extensionistas.
autor: Erotildes Maria Leal e Ruth Escudero (organizadoras)
editora: Universidade Federal do Rio de Janeiro
isbn: 978-85-62805-69-1
idioma: Português
encadernação: Brochura
formato: 15 x 21
páginas: 380
ano de edição: 2017
edição: 1ª

Portfólio Oficial – Amanda Amado

Poesia e Cidade: Macaé

2000px-Bandeira-macae.svg

Nos últimos encontros do sarau macaense “Língua do P”, por conta da proximidade do aniversário de 203 anos da cidade, aconteceram diversas discussões sobre o papel das relações estabelecidas com a cidade na vida de seus moradores e na obra dos poetas contemporâneos. Partindo daí, houve uma proposta coletiva de produzir poesias que tivessem a cidade, e as múltiplas e heterogêneas relações que cada um tem com ela, como matéria de trabalho.

Na última terça (26) ocorreu o encontro. Como alguém relativamente “novo”, foi muito interessante poder ouvir relatos daqueles que ali estavam, isso porque foi possível perceber que, as relações produzidas por alguns daqueles que falavam, não passavam apenas por uma habitação ou uso da cidade (no sentido mais literal do termo) mas, de fato, por um esforço constante e ininterrupto por fazer com que os modos de existência nela, sejam mais alegres e pulsantes.

20160726_185057

Gerson Dudus e Sandra Wyatt compartilharam inúmeras histórias sobre a produção artística da cidade. O “Varal de Poesias” foi um exemplo. Na década de 80, os artistas da cidade se juntavam para expor suas poesias em um varal que era alocado na praia dos Cavaleiros. Ali, todos que passavam podiam entrar em contato com as produções que versavam sobre as mais variadas temáticas, dentre elas, crítica e discussão sobre os acontecimentos da época. Seu papel social era de dar suporte e servir como vitrine para a expressão de todo o tipo de pensamento. O que tornou o Varal alvo de ataques constantes que inviabilizavam o seu funcionamento. Em uma época onde as redes sociais eram uma promessa distante, havia a necessidade de um engajamento mais pungente para fazer uma iniciativa como esta funcionar, por outro lado, a mesma necessidade se colocava até para os movimentos que visavam seu desmantelamento, afinal, arrancar estacas de madeira fincadas na terra no meio da noite, demandava um trabalho muito maior do que escrever comentários no Facebook.

20160726_193546

Uma das páginas do varal.

Uma das questões mais importantes foi perceber que produções como essas se ligam estreitamente com a luta social, e mais especificamente em Macaé, com a luta ambiental. O relato sobre como um pequeno grupo de artistas-ambientalistas juntamente com professores e alunos do Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Sócio-Ambiental de Macaé (NUPEM/UFRJ) conseguiram vetar a aprovação do porto que seria instalado recentemente na área do bairro do Barreto, foi quase literário. Foi por uma insistência de alguns poucos, provavelmente não conhecida por muitos além daqueles que participaram do processo e dos que agora leem esse texto, que um grande empreendimento, portador de claras e previsíveis consequências nocivas ao meio ambiente onde se instalaria, foi barrado (no mesmo momento também foi informado que a licença prévia para o início das atividades de um novo porto já foi liberada sem sequer uma audiência).

PhotoGrid_1469936250203

“Imbetiba” de Sandra Wyatt .Do livro de poetas macaenses “Quem Canta Macaé”.

Não é de hoje que sabemos o quanto Macaé — possuidora de uma variedade de territórios, geografias e ecossistemas: serra, mar, lagoa, floresta, restinga, mangue, dentre outros; variedade essa muitas vezes despercebida pelo os que aqui habitam — luta contra a ocupação de uma lógica de trabalho e exploração que não inclui de maneira consistente, em seu processo de desenvolvimento, o cuidado com a cidade onde se coloca. Não simplesmente uma cidade enquanto espaço físico, soma de habitantes ou estatuto legal, mas uma cidade pensada enquanto espaço intensivo, enquanto espaço que é palco do investimento do desejo de seu moradores, desejo esse direcionado aos mais diferentes meios: trabalho, lazer, alimentação, moradia, cuidado etc.  Saber que há pessoas engajadas na melhoria da construção desse espaço é fundamental para criar relações que potencializem as nossas próprias vidas e daqueles com os quais convivemos.

PhotoGrid_1469935337171PhotoGrid_1469935084826

Assim, compartilho aqui a poesia que fiz para a ocasião, mas que não se limita a ela, diz repeito a qualquer movimento que busca autonomia e, como dito anteriormente, alegria.

_________________________________

M.A.C.A.É


vejo
muito olhos
juntos
fazendo de tudo
para ver
o que empurram
morro acima
das goelas
das ruas macaenses

e porque estão juntos
do que os engasga
não conseguem ver
o que desafoga

o trânsito
o motor do carro
o fluxo

ininterrupto

de cortes
ocasionados
por estragos
ainda não repensados
por quem
não entende disso aqui

esses olhos
que essa terra há de tentar fuder
ainda tem olhos
para outras coisas tantas

que fazem cair
outro tipo de lágrima

sentida por quem
pega na mão

das coisas que produz
dos nomes que conhece

das festas
feitas
para festejar

das praias
inundadas
pelo mar

da mudança
efetuada
por coragem

dos beijos
dados
por vontade

essa cidade
um hotel
chega de camareiras
um local pertence
a quem arruma a própria cama

_________________________________

Por fim, deixo também a música “Feliz Cidade” do cantor e compositor Chico Brant (a qual conheci durante o sarau), que também fala, agora em outro tipo de poética, sobre a cidade.