Ensaio

PENSAMENTO E DOMÍNIO

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Pintura: Odyr Bernardi

A história dos grandes homens paira entre a busca do amor, o questionamento da loucura e a luta pela solidão. Quem possui outros motivos, ainda não se tornou um deles. Tendo abandonado a religião e a superstição por completo, o desejo pela vida se torna tão ambíguo quanto a morte. O suicídio, imediato ou prolongado, será sempre uma opção para acabar com a dor, mas nunca com a vida. Ela permanece nos quadros, livros e poemas. Estes frutos da experiência são, no entanto, apenas rastros da inteligência, o retorno de uma lança fincada pelo pensamento. E é por meio dele que o homem afirma seu domínio.

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SOBRE UMA FUNÇÃO DO RISO

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Duas mulheres na janela – Bartolomé Esteban Murillo [1655-1660]

Alguém canta no palco. Ligados pelo riso, eu e outro ser humano na platéia. Mas algo diverge esses corpos, estamos em planos diferentes. Para ele, riso como zombaria, para mim, nada menos que contemplação do estado em que aquele ser havia me provocado. Quando não se consegue decidir se uma experiência é boa ou ruim, e esse era o caso, nosso corpo, marcado a ferro quente pela moral, emite espasmos, começa a falhar, começa a rir. E se o corpo que falha é o próprio, rir do outro é sempre um engano. Esse é, portanto, um dos momentos mais propícios para conhecer a postura de uma pessoa. E daquele outro se desvelou um riso de julgamento que jamais poderia vir de um pensador. O meu, se pudesse falar, diria: “e por acaso existe um aplauso mais sincero que o riso público? O corpo falha de maneira incontrolável e, sabendo disso ou não, expressa da forma mais explícita que foi tocado”.

 

LIVRO DAS FACULDADES HUMANAS: 1ª AFIRMAÇÃO, VERSÍCULO I

Nietzsche, o ateu, foi o primeiro filho civilizado do Pensamento, descobrindo a vergonha no nascimento de seu mundo. Covardia é matar sem estar pronto para morrer. Foi assim que ele viu o senhor de sua era, Deus, cair pelas mãos do homem. As lágrimas que escorreram de seu rosto nunca carregaram a vontade de que nada fosse diferente. Elas apenas gritavam: vocês não sabem o que é a vida, confundem morte com negação e agora serão escravos de si! Lutarão curvados pela lembrança da doença ao invés de desejar de pé a dor como cura pelo esquecimento. Essas foram as únicas palavras proferidas naquele enterro vazio.

Cachorros não têm rede social – Interação ética do conflito

Man With Dog - Francis Bacon (1953)

Man With Dog – Francis Bacon (1953)

Alex, Bob e eu; todos em frente da casa durante a noite que já apontava alguns pingos de chuva. Em algum momento o cachorro preto se aproximou de Bob — não é nenhuma novidade naquele quintal o quanto aquele cachorro pode irritar. Ficou ali por algum tempo, mas Bob não demorou muito para fazer ele sair. Agarrou o tronco do cachorro e começou a dar algumas dentadas perto do rosto, os músculos das costas se contraiam junto com os do início das patas da frente, o pescoço se firmava com um balanço próprio, as unhas derrapavam na lama que já começava a se formar por conta da chuva; fora os rosnados, só pude constatar “eles estão lutando jiu-jitsu”. Era bem claro que o o cachorro preto estava estava apanhando, mas não havia sequer uma movimentação de contrataque. Quando pensei sobre briga, a percepção que logo nos vem é de uma agressão mútua que só termina quando um dos envolvidos está fraco demais para continuar. Fui levado longe demais por percepções comuns. Em certo ponto Bob, ainda que estivesse em uma clara vantagem, para o ataque e se afasta.

Pois bem, aqui os defensores da paz na terra e do espírito de bondade podem achar que a conclusão foi sobre a piedade e a compaixão, nada mais errado. Por duas razões. Em primeiro lugar o que estávamos vendo não era um ataque, mas um recado. Ainda sobre o jiu-jitsu, Alex seguiu, “sim, mas é pior que isso. Animais se comunicam por gestos, ações; é até ridículo você pensar um cachorro pedindo licença, a ação mais próxima para um ‘sai daqui’, dado de perto, é o que acabamos de ver”. Não era compaixão porque não era um ataque, ainda. O que nos leva a segunda razão. Não foi uma briga por um único motivo: o cachorro preto não revidou. Isso significa: não houve abertura corporal para a entrada em um conflito. Nenhuma palavra trocada, nenhum pedido de perdão. A aparente desistência de Bob se baseava em um sensibilidade que passa por uma ética corporal que não precisou de qualquer elemento externo ao acontecimento para se guiar; não se briga com quem não quer brigar, não se entra em conflito com quem não está disposto a conflitar, não por respeito, mas simplesmente porque, ainda que uma briga seja iniciada por um motivo específico (proteção de território, comida, etc) a questão do conflito é somente conflitar e não perder ou ganhar, assim, há apenas um decisão, conflitar ou fazer outra coisa. A concepção é exatamente essa: o ataque só foi uma mensagem porque não houve abertura ao conflito. Isso quer dizer: qualquer interação é conflitiva. Mas devemos lembrar que a briga é apenas uma das dimensões do conflito, dele pode emergir o cuidado, o sexo, a disputa… por isso é sempre tão ambíguo observar a troca de carinho entre animais, ações tipicamente vistas como violentas vão se mostrar.

É muito comum falar sobre linguagem simbólica e não simbólica para diferenciar humanos e animais — que em resumo dizem sobre a capacidade humana quase inesgotável de dar e modificar sentidos para uma mesma ação comunicativa — mas trata-se de um critério mal colocado. Isso porque essa interação foi abordada sob a perspectiva do mais complexo (homem) para o menos complexo (animal), determinando o último como uma limitação em relação ao primeiro. Não estou falando aqui do ainda pior “se colocar no lugar do outro”, a questão é que pensar passa por se valer das linhas de contato que aquilo possui, nem mais, nem menos. Tomar a linguagem humana como parâmetro em qualquer nível para entender a movimentação de seres que não possuem linguagem humana é querer falar pelos cachorros. Sendo assim, não seria a relação com essa corporalidade um critério muito mais concreto para conceber essa diferenciação? Ao conceber uma infinidade de códigos para dar conta das experiências, o humano acabou por criar camadas de símbolos que remetem umas às outras deixando a corporalidade como último plano, restando apenas como depósito de sintomas. A partir desse afastamento, proliferam-se práticas que insistem em conflitos unilaterais e que se sustentam quase que exclusivamente por razões exteriores a eles: briga por outra coisa, sexo por outra coisa, escrita por outra coisas, política por outra coisa. Tiranias contra outros e contra si mesmo. Resta ao corpo, ao invés de participar, se expressar e se modificar pelo conflito, seja ele qual for, se diminuir e sofrer com o deslocamento que os símbolos, claros ou obscuros, fazem exigir dele.

O conflito nunca desaparece, continua se dando mesmo por baixo de todos os panos e entre todos os corpos como condição para qualquer interação; e é por esse meio, pela vontade de conflitar como solo para a movimentação que a vida pode passar. Cachorros não têm rede social, não possuem ideais, não entendem nada sobre respeito, cachorros lutam jiu-jitsu; seja pelo consenso do totalitarismo ou pelo totalitarismo do consenso, ainda não entendemos isso muito bem.

O artista é uma tartaruga reversa

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O artista vai a lugares que só ele pode ir. Não por exclusividade, mas por uma abertura de sensibilidade que convoca violentamente seu corpo ao verdadeiro trabalho — não aquele que parte de uma demanda por teto ou comida, carro ou roupa, felicidade ou bem-estar, aprovação ou reconhecimento — da vontade que não tem dono nem cara, ao desejo mais vivo em sua raiz, e talvez por isso, indomável. É nesse campo, onde se foram as necessidades impostas, onde todos se assujeitam da participação que, muito estranhamente, o artista se sente em sua terra natal, sentimento esse quase esquizofrênico. Como? Como amor ao caos? Como amor à incerteza? Como amor à experimentação sem garantias? Mas, por azar ou sorte, para estes, é assim. Tornar-se artista é, entre muitas outras coisas, se apropriar, a seu próprio modo, desse “assim” (o que se chama de “estilo” é nada mais que esses modos). Como todo trajeto, esse caminho possui muitas variações, o que no caso desse grupo estranho gera um livro, uma vestimenta, uma casa, um álbum, uma transa, um poema, um algorítimo, um quadro, um filme. E que não se faça apologia aos estados de exaltação, ou mesmo de depressão, como matéria de trabalho; o artista não é um dependente de nada, interessa tocar a sensibilidade do que vier, saber entrar, saber passar, saber sair, com consistência e a imprudência atenta que insistem em nos dizer que devemos deixar de lado.

Sendo este indivíduo que expressa corpo para tais coisas, ele faz algo: dá corda pra coisa pouca que costura a roupa de quem vive, mas que não percebe isso. Muitas das experiências, quem vive, acha que vive sozinho. Acha que só uma pessoa sofre daquele jeito, que só ela ri daquele jeito, que só ela se movimenta daquele jeito, que só ela brinca daquele jeito, que só ela sente saudade daquele jeito, que só ela se comunica daquele jeito, que só ela é ela. Mas o que deixa tudo ainda mais estranho nisso tudo, é descobrir que ninguém é ninguém, que todos estão povoados pelas coisas mais improváveis (em intensidade e quantidade), que somos frutos de uma cidade, de um bairro, de uma escola, de uma(s) amizade(s), de uma forma de amar, de uma forma de dar esporro, e que por isso, somos seres coletivos, ainda que trancados em nossos quartos.

No entanto, esses povos que nos habitam, esses bárbaros que invadem as terras de quem só quer viver protegendo seu pedaço morto de terra cercado por muros, costumam assustar quem não entende que eles nunca quiseram invadir, mas apenas ocupar os espaços por onde passam, fazer da terra um meio e nunca um fim. E o pior: compreendendo ou não isso tudo, a afetação não deixa de existir, para ninguém. O artista entende que a questão nunca foi com ele, nem com qualquer um que seja, não é pessoal, nunca foi. A questão são forças, são povos e, portanto, o artista não tem mais o que fazer em si. Seu eu vira tudo, vira qualquer coisa. Sendo assim, é com esse meio que ele passa a dialogar e essa se torna a destinação do que é feito. A sua comunicação passa a afetar campos sensíveis antes não concebidos. Mas se isso é possível, só é por conta do conjunto de forças comum que perpassam a existência de qualquer indivíduo: homens, pedras, baratas, flores, bactérias, átomos, neutrinos, galáxias. Sem o coletivo, o artista individualiza sua produção e passa a falar de si para si, e assim, morre (em todos os sentido que essa palavra pode ser).

Isso que chamam de vida é massacrado por tantas coisas que quase ninguém consegue respirar. O artista é uma tartaruga reversa: mergulha para inalar o ar e volta para viver na superfície. Sua obra só pode ser viva se retorna para este mesmo social e deixa que essas forças possam ter a chance de tocar outros corpos e dialogar com o corpo vivo do que foi concebido, reinserindo isso nisto, fazendo os povos prosseguirem para novos campos. Mas é preciso deixá-los caminhar por ai, deixá-los livres para que possam, ao encontrar com quem os possa receber, ter a chance de andar, fazendo assim com que o indomável ganhe diferentes corpos e siga produzindo vontades livres.

O Cheiro da Sujeira

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Seguindo a interpelações cinematográficas, o encontro com um filme dessa vez gerou um poema. A opção aqui é por  não limitar nenhuma forma de expressão que surja  e assim foi. “O Cheiro do Ralo”  é um longa-metragem brasileiro de 2007 dirigido por Heitor Dhalia e baseado no livro homônimo do autor Lourenço Mutarelli.

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SUJEIRA
[Macaé, 04.08.2016]

o cheiro do ralo no fundo do poço

No ralo
cabelos caídos
misturados com gozo
formando um único bolo
de porra

embolando
partes longas e finas
que sobrevivem ainda depois da morte
misturadas com aquelas que com sorte
poderão um dia cagar

poderão um dia
produzir esses dejetos

dirigidos para as arestas rejuntadas recobertas de piso frio nos banheiros
buracos chamados de bueiros
locais sujos e imundos
protegidos pelas solas dos sapatos

o fundo do poço no cheiro do ralo

Querem fazer acreditar que seja pela gravidade
que seja pela utilidade
que seja pela praticidade
que seja pela necessidade
que ralos encontrem-se assujeitados
aos cantos
ao não visto
ao caminho desconhecido
aos mitos e lendas de seu desembocar

o poço do fundo no ralo do cheiro

Lá está, sempre esteve e sempre estará
onde os mal ditos e esquecidos sonharam e disseram

lá está, para lá escorre:

O prazer e o orgasmo das putas

A morada dos mendigos

A língua e o infinitivo dos loucos

O olhar desarmado do desconhecido

O toque profundo de quem não possui nada do tudo que vive

O erro visto como acerto necessário para percorrer uma trajetória

A passagem por vias de atrofia fincadas entre as pedras retangulares das ruas

As bandeiras desenhadas com sangue

As árvores suprahermafrodíticas gestadoras de todos os frutos

Os corpos condutivos por suor e contato

As nações governadas pelos ventos uivantes da força e liberdade que balançam árvores
e deixam folhas secas recobrindo o chão tornado-o agora um barulhento aviso
indicador de passos pesados e frios que não sabem dançar com a chegada do outono

o ralo do cheiro no poço do fundo

Um ralo vira ralo
quando fede
qualquer coisa
quanto mais real
mais suja

mais dente cerrado
mais emaranhado
mais puxado e desfiado o mundo
torcido e retorcido nas voltas
do tempo e da matéria
dos intestinos
remoendo a carne da terra
pertencente àqueles donos da escritura chamada Coragem
lavrada em lugar nenhum
e reconhecida por quase ninguém
terras que assim seguem
por demandarem como adubo
a merda mais pura
arada com as mãos

as mesmas que comem
que oferecem carinho aos amantes e filhos
que moldam os instrumentos
que rasgam a própria cara
e que por fim
arrancam raízes
nutridas umas pelas outras
na rede infinitamente conectada e indiscernida da existência

o cheiro do ralo no fundo do poço
o fundo do poço no cheiro do ralo
o poço do fundo no ralo do cheiro
o ralo do cheiro no poço do fundo

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O cheiro da merda no fundo do rabo