Dádiva

DÁDIVA

A mulher é algo que dorme.
Existem homens que sabem,
outros não. No sono lento
do repouso entregue, despertam
seus vincos como um eco distante
de tecidos molhados batendo
sobre a terra coberta de sangue.

Como duram as noites
em que espreito esse segredo,
completamente solitário e
exposto àquelas que, por
ignorarem o fluido ser,
têm o olhar perdido
de um lago seco.

Jorro e prazer. É também
nisso que a mulher se explica.
Um vaso de ouro rachado
por frestas nuas. Dois corpos
úmidos: suor primeiro, lágrimas
depois. O sagrado líquido
revelado no gozo interior.

E quando há amor à mulher
uma irreversível ruptura do tempo.
Os passados do amante e
da mulher não mais saberão
a quem pertencem. E por isso
lembro, pois se lembro amo, e se
amo digo para lembrar quem somos.

Dorme mulher, dorme
e escorre nos sonhos alheios.
Como homem que sabe
quero ver teu rosto em fuga
e trilhar a conquista longa
que me arrasta todos os dias
pela correnteza das águas.

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