Arte

SOBRE UMA FUNÇÃO DO RISO

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Duas mulheres na janela – Bartolomé Esteban Murillo [1655-1660]

Alguém canta no palco. Ligados pelo riso, eu e outro ser humano na platéia. Mas algo diverge esses corpos, estamos em planos diferentes. Para ele, riso como zombaria, para mim, nada menos que contemplação do estado em que aquele ser havia me provocado. Quando não se consegue decidir se uma experiência é boa ou ruim, e esse era o caso, nosso corpo, marcado a ferro quente pela moral, emite espasmos, começa a falhar, começa a rir. E se o corpo que falha é o próprio, rir do outro é sempre um engano. Esse é, portanto, um dos momentos mais propícios para conhecer a postura de uma pessoa. E daquele outro se desvelou um riso de julgamento que jamais poderia vir de um pensador. O meu, se pudesse falar, diria: “e por acaso existe um aplauso mais sincero que o riso público? O corpo falha de maneira incontrolável e, sabendo disso ou não, expressa da forma mais explícita que foi tocado”.

 

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[Monografia] GÊNESE, CONSERVAÇÃO E DIFERENCIAÇÃO PERCEPTIVA – SÁVIO DE ARAÚJO (2016)

ARAÚJO, Sávio de. Gênese, conservação e diferenciação perceptiva. O potencial inventivo da vida como via produtiva de uma Psicologia criadora. 2016. 53 f. Monografia (Bacharelado em Psicologia). Instituto de Humanidades e Saúde, Universidade Federal Fluminense, Rio das Ostras, 2016.

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Sumário Monografia

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia do Instituto de Humanidades e Saúde do Campus Universitário de Rio das Ostras da Universidade Federal Fluminense (UFF), como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia.

BANCA

Prof. Dr. Danilo Augusto Santos Melo (Orientador)
Prof. Dr. Johnny Menezes Alvarez
Prof. Dr. Márcio Luiz Miotto

RESUMO

O presente trabalho tem o objetivo de discutir os processos de constituição da percepção a partir da leitura dos conceitos de Henri Bergson, investigando, através dos procedimentos de pintura de Francis Bacon, maneiras possíveis de manipular ativamente esse processo em prol de uma experiência sensível de criação que se diferencie daquela crivada utilitariamente por nossos hábitos e representações. Buscamos compreender ainda, por meio dos conceitos de Inteligência (Bergson) e Pensamento (Gilles Deleuze), como essas diferentes abordagens da realidade atuam nas relações do sujeito, bem como no funcionamento de suas faculdades, identificando assim o pensamento como via possível para um exercício inventivo da vida menos constrangido, o que por sua vez, torna a discussão da temática relevante para a proposta de uma Psicologia que pretenda estar em consonância com o processo criador da realidade.

Palavras-chave: percepção, Arte, inteligência, pensamento, criação, Henri Bergson, Francis Bacon, Gilles Deleuze.

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digitalização: arquivo virtual (original)
cor: preto e branco
formato: PDF (A4)
paginação: 1 página por folha (vertical)
título: Gênese, conservação e diferenciação perceptiva. O potencial inventivo da vida como via produtiva de uma Psicologia criadora
autor: Sávio de Araújo
idioma: Português
páginas: 51
ano de edição: 2016

O artista é uma tartaruga reversa

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O artista vai a lugares que só ele pode ir. Não por exclusividade, mas por uma abertura de sensibilidade que convoca violentamente seu corpo ao verdadeiro trabalho — não aquele que parte de uma demanda por teto ou comida, carro ou roupa, felicidade ou bem-estar, aprovação ou reconhecimento — da vontade que não tem dono nem cara, ao desejo mais vivo em sua raiz, e talvez por isso, indomável. É nesse campo, onde se foram as necessidades impostas, onde todos se assujeitam da participação que, muito estranhamente, o artista se sente em sua terra natal, sentimento esse quase esquizofrênico. Como? Como amor ao caos? Como amor à incerteza? Como amor à experimentação sem garantias? Mas, por azar ou sorte, para estes, é assim. Tornar-se artista é, entre muitas outras coisas, se apropriar, a seu próprio modo, desse “assim” (o que se chama de “estilo” é nada mais que esses modos). Como todo trajeto, esse caminho possui muitas variações, o que no caso desse grupo estranho gera um livro, uma vestimenta, uma casa, um álbum, uma transa, um poema, um algorítimo, um quadro, um filme. E que não se faça apologia aos estados de exaltação, ou mesmo de depressão, como matéria de trabalho; o artista não é um dependente de nada, interessa tocar a sensibilidade do que vier, saber entrar, saber passar, saber sair, com consistência e a imprudência atenta que insistem em nos dizer que devemos deixar de lado.

Sendo este indivíduo que expressa corpo para tais coisas, ele faz algo: dá corda pra coisa pouca que costura a roupa de quem vive, mas que não percebe isso. Muitas das experiências, quem vive, acha que vive sozinho. Acha que só uma pessoa sofre daquele jeito, que só ela ri daquele jeito, que só ela se movimenta daquele jeito, que só ela brinca daquele jeito, que só ela sente saudade daquele jeito, que só ela se comunica daquele jeito, que só ela é ela. Mas o que deixa tudo ainda mais estranho nisso tudo, é descobrir que ninguém é ninguém, que todos estão povoados pelas coisas mais improváveis (em intensidade e quantidade), que somos frutos de uma cidade, de um bairro, de uma escola, de uma(s) amizade(s), de uma forma de amar, de uma forma de dar esporro, e que por isso, somos seres coletivos, ainda que trancados em nossos quartos.

No entanto, esses povos que nos habitam, esses bárbaros que invadem as terras de quem só quer viver protegendo seu pedaço morto de terra cercado por muros, costumam assustar quem não entende que eles nunca quiseram invadir, mas apenas ocupar os espaços por onde passam, fazer da terra um meio e nunca um fim. E o pior: compreendendo ou não isso tudo, a afetação não deixa de existir, para ninguém. O artista entende que a questão nunca foi com ele, nem com qualquer um que seja, não é pessoal, nunca foi. A questão são forças, são povos e, portanto, o artista não tem mais o que fazer em si. Seu eu vira tudo, vira qualquer coisa. Sendo assim, é com esse meio que ele passa a dialogar e essa se torna a destinação do que é feito. A sua comunicação passa a afetar campos sensíveis antes não concebidos. Mas se isso é possível, só é por conta do conjunto de forças comum que perpassam a existência de qualquer indivíduo: homens, pedras, baratas, flores, bactérias, átomos, neutrinos, galáxias. Sem o coletivo, o artista individualiza sua produção e passa a falar de si para si, e assim, morre (em todos os sentido que essa palavra pode ser).

Isso que chamam de vida é massacrado por tantas coisas que quase ninguém consegue respirar. O artista é uma tartaruga reversa: mergulha para inalar o ar e volta para viver na superfície. Sua obra só pode ser viva se retorna para este mesmo social e deixa que essas forças possam ter a chance de tocar outros corpos e dialogar com o corpo vivo do que foi concebido, reinserindo isso nisto, fazendo os povos prosseguirem para novos campos. Mas é preciso deixá-los caminhar por ai, deixá-los livres para que possam, ao encontrar com quem os possa receber, ter a chance de andar, fazendo assim com que o indomável ganhe diferentes corpos e siga produzindo vontades livres.