SOBRE UMA FUNÇÃO DO RISO

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Duas mulheres na janela – Bartolomé Esteban Murillo [1655-1660]

Alguém canta no palco. Ligados pelo riso, eu e outro ser humano na platéia. Mas algo diverge esses corpos, estamos em planos diferentes. Para ele, riso como zombaria, para mim, nada menos que contemplação do estado em que aquele ser havia me provocado. Quando não se consegue decidir se uma experiência é boa ou ruim, e esse era o caso, nosso corpo, marcado a ferro quente pela moral, emite espasmos, começa a falhar, começa a rir. E se o corpo que falha é o próprio, rir do outro é sempre um engano. Esse é, portanto, um dos momentos mais propícios para conhecer a postura de uma pessoa. E daquele outro se desvelou um riso de julgamento que jamais poderia vir de um pensador. O meu, se pudesse falar, diria: “e por acaso existe um aplauso mais sincero que o riso público? O corpo falha de maneira incontrolável e, sabendo disso ou não, expressa da forma mais explícita que foi tocado”.

 

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PRIMÓRDIO

Quando o tempo dissipa
o calor das palavras,
resta o sangue sem fúria 
que heróis de guerra
nunca conhecerão.

Estou aqui, pés vermelhos
no vazio campo de batalha.
Cada gota coagula esse solo
de centelhas virgens.
Assim começa a escrita.

Das coisas em mim,
corpos pertencem à morte,
vivem as afirmações. Por isso,
sendo o tempo sempre outro,
direi sim mais uma vez.

[Livro] Caribe Transplatino – Néstor Perlongher [org] (1991)

[Livro] Caribe Transplatino capa

PERLONGHER, Néstor (org). Coração Transplatino: poesia neobarroca e rioplatense. São Paulo; Iluminuras, 1991.

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[Livro] Caribe Transplatino sumario 1

[Livro] Caribe Transplatino sumario 2

 

Pérola irregular, nódulo de barro: os caprichos deslumbrantes do barroco hispânico, recuperados do achatamento neoclássico, passando primeiramente pelos tópicos caribenhos da mão poderosa de José Lezama Lima e dando surpreendentes voltas por um Rio da Prata domingueiro e sensual, aportam nestas bárbaras praias do Brasil. Cartografia intensiva desse novo e potente movimento escritural, o neobarroco, que renova e leva a inefáveis alturas a poesia hispano-americana. Caribe Transplatino, organizado pelo poeta Néstor Perlogher, representa a primeira versão em português desses poetas indispensáveis: além do grande Lezama Lima, o cubano Severo Sarduy (que colocou em circulação o termo “neobarroco”), seu compatriota (radicado em Nova York) Josá Kozer, a poética revolucionária do argentino Osvaldo Lamborghini, o sensualismo de Néstor Perlongher e Roberto Echavarren, o preciosismo de Arturo Carrera, a concisão de Eduardo Milán e de Tamara Kamenszain, dispõem um arquipélago joiesco e multiform onde resplandece um sofisticado trabalho da letra, somado a uma sensibilidade exacerbada e fabulosa.

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digitalização: 300 dpi
cor: colorido
formato: PDF (A4)
paginação: 2 páginas por folha (horizontal)
título: Caribe Transplatino: poesia neobarroca e rioplatense.
autor: Néstor Perlongher (organizador)
editora: Iluminuras
isbn: 85-85219-43-2
idioma: Português
encadernação: Brochura
formato: 14 x 21
páginas: 133
ano de edição1991
edição: 1ª

CREOLINA PARA HOMENS

Dias, passem devagar
para que eu conheça
o tempo no mundo.

Nunca fomos nada
além de cotidianos.

Que eles se estendam
e mastiguem estátuas,
fazendo de nós
amor ao desconforto.

Acordar sozinho
na rara luz da manhã,
azul na fresta da cortina.

Panos secos na cama
e horizonte vazio,
tudo acontece
do jeito que é.

Manadas de famílias
atravessam meu caminho
como matilhas.

Essas mulheres
se corroem por dentro,
dois corpos úmidos:
suor primeiro
lágrimas depois.

Tudo se estreita
na vida nova.

RUAS DESERTAS

Os flamboyans
da Monteiro Lobato
balançam enquanto
gatos de outras casas
saem para caçar.

Em uma noite
fresca como essa
podemos levitar
pelas ruas macaenses.

Desertas, calmas,
prestes a amanhecer.

Depois das prostitutas
e o cheiro de peixe,
viaduto e luzes de areia.

Sinais amarelos,
bares fechados,
letreiros escuros,
adolescentes na orla.

Ainda não basta, a água
precisa descansar.

Imboassica:
banheira e espelho
dessa noite.

Os pedalinhos
nos chamam,
mas estão trancados
como sempre.

O topo dos bares
está vazio,
lá sentamos
para nos anestesiar.

As horas saltam
e o carro desliza
pela via expressa.

No parque industrial
estamos num terreno liso
da altura de um prédio.

As luzes acesas
brilham daqui,
Detroit nunca esteve
tão perto.

Inóspito,
nenhum grito
seria ouvido.

Farol ligado,
num ritual
tudo termina.

Nessa terra
voltar é sempre
mais difícil que ir.

[Livro] SATORI – Horácio Costa (1989)

[Livro] SATORI CAPA

COSTA, Horácio. SATORI. São Paulo; Iluminuras, 1989.

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[Livro] SATORI SUMARIO 1

[Livro] SATORI SUMARIO 2

 

“Os textos de Satory desenham o itinerário poético de um escritor brasileiro que decidiu destrinchar os impasses da modernidade mediante duas estratégias diversas, mas complementares. (…) Desde logo, se reconhecem os signos dessa sensibilidade no manejo da descontinuidade do discurso: giros imprevisíveis no tom, contradições e permutações verbais, espaços em branco e dispositivos tipográficos – estes tomados da poesia concreta -, incisões de palavras e textos exógenos, súbitas chamadas metapoéticas (…)”.

Irlemar Chiampi

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digitalização: 300 dpi
cor: colorido
formato: PDF (A4)
paginação: 2 páginas por folha (horizontal)
título: SATORI
autor: Horácio Costa
editora: Iluminuras
isbn: 85-85219-08-4
idioma: Português
encadernação: Brochura
formato: 15 x 21
páginas: 112
ano de edição1989
edição: 1ª