Desvenda

IMG_20180128_212906_568.jpg

Em teus frutos maduros
reencontrei esclarecidas
muitas verdades frágeis.

Cantadas, ainda que digam
aos ouvidos do povo,
já não mais as lembro.

Por assim esquecer
cubro-a com cinzas
que protegem a brasa.

Assopro a primeira boca
e vejo nascer a luz:

claro permanece teu rosto,
monumento forjado pelo sorriso.

Menina rara, o vento
domará nossos segredos.

Anúncios

UM

IMG_20180106_220316_399 (2).jpg

O que existe e sabe
bebe a própria solidão
em pétalas angustiadas.
Cada ser é a declaração
infinita do esquecimento,
terras antigas desaguadas
em filhos novos.

Nomes, datas, planos:
carne consumida pelo tempo.
Sabidas são as cicatrizes.

Brindar a face do destino,
assim os dias amanhacem
e a história entrelaça
esfinges sólidas.

Há música em bocas vazias,
cantos entoados por pedras,
chamas consumadas
nos veios de cristais.

O calor em fuga
ilumina a rachadura dos corpos
e as palavras brotam cruas
do sal escorrido na pele.

 

Neblina

24068320_395558077545846_5836228691832023607_n.jpg

Luz da noite,
prata azul lunar
nas caudas negras de teu rosto.
Fendas cintilantes
entremeiam nossos atritos.
Músculos, fibras tesas,
gestos cálidos, líquen.
Somos agora justificativa
para o acaso que nos une,
escolta poeril da terra
que flutua no lúmen.
Apenas palavras abstensas
(lastros abertos ao fogo)
poderiam dizer tais coisas,
e por isso sou um náufrago
dessa liberdade, a devastação
no pesadelo de homens comuns.
Saber melhor depois do fim,
lembrar de reinos duplicados,
caçar abismos em limite,
sangrar a crueldade dos caminhos,
limpar chagas com novos hinos.
Voltam assim tuas safras
colhidas por lâminas cegas
e as penumbras desse ardor
caem sobre meus pés como
o solstício de um nítido dilúvio,
lá onde imprevisíveis lampejos
inscrevem nas pedras
a tua cuidadosa presença.

Simone Weil e a brutalidade

23269972_386478535120467_2106889329_o

“Não acreditemos que por sermos menos brutais, menos violentos, menos inumanos do que aqueles que enfrentamos, nós prevaleceremos. A brutalidade, a violência e a inumanidade, possuem um prestígio imenso que os livros escolares escondem das crianças, que os homens feitos não confessam, mas que subsiste sempre. As virtudes contrárias, para que possuam um prestígio equivalente, devem ser exercidas de maneira constante e efetiva. Qualquer um incapaz de ser tão brutal, tão violento e tão inumano quanto um outro sem, no entanto, exercer as virtudes contrárias, é inferior a esse outro em força interior e prestígio; e não resistirá diante dele.”

— Simone Weil. Œuvres complètes II, p. 117. [tradução própria]