I

Por entre dunas incertas
o horizonte dos sexos
perpetua o êxtase.

Buscando explicações
caminhei desde a infância
até ser possuído pelo prazer
em primeira instância das mulheres.

Nada é mais importante.
A raiva, o cuidado, a loucura.
Tudo passa por essa trilha que paira
em zonas de hálito quente.

Mesmo em esquinas sujas,
onde encontros furtivos
decantam lágrimas,
elas seguirão indivisas
em busca do ouro cruel.

Encrustado nas pedras
de jóias antigas, ele é o adorno
de clavículas ingênuas, pois
é na pele prensada pelo tempo
que o segredo subsiste.

Elas viram o queríamos
e era tão pouco. A conquista é
nosso dom. Sem isso estamos
inférteis e condenados.

1 tomar o território, 2 romper fibras
nutridas por outros. Mastigo, bebo
e cuspo o suco do levante
no rosto dos fracos.

Há um embate e duas vitórias.
Elas sabem, eu sei. Precisamos vencer
sabendo quem somos, sob o risco de
bradar a derrota.

Essa lama nos pertence,
seguiremos cruzando juntos
as gotas em confronto
abaixo da cintura.

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Sávio – Pista (single)

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Foi lançado no dia 8/5 meu primeiro single, “Pista”, nas principais plataformas digitais.

Sigo no Hip-Hop, como Produtor e MC. Para esse ano ainda, outras músicas e projetos em parceria. Agradecimento aos que participaram da produção desse trabalho e que seguem contribuindo na minha formação artística.

Foto: Amanda / Amanda Soares Amado
Capa: Felippe Xyu
Mix/Master: DJ THAG / Thag De Araújo

Curtam a página no Facebook, tudo disponível lá.

 

PALAVRA

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A palavra esquecida
evapora improvável.

Incinerado neste
caminho estranho
permaneço quieto.

A treva deglutida
pela boca calada
borbulha onde
não se sabe.

Sigo o método da dor
e faço da palavra
uma antiga opressão.

Desperto
a raiz tempestuosa
que cresce
no tempo da escrita

Deixo-a destruir
sonhos inúteis
que lutam por nomes,
pois serei agora
um mar intransponível,

o signo infinito de
idiomas mortos
na língua improvável
de cada palavra.

A CRUELDADE

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Certo dia
senti a fome,
mas não me levantei.

Talvez não fosse a fome,
talvez, houvesse segredos
que os homens não ousam
contar para si.

Gostaria de sabê-los todos,
mas não sei. Assim como
os seres ainda estranhos
da mesma espécie, olho para
o tempo como um primitivo.

Vi esse fundo obscuro
em todas as retinas nas quais
ousei olhar de frente. Sim,
nosso lugar é onde não sabemos.

E esperando que alguém
dissesse tais coisas,
não me levantei.

Eu cruzaria qualquer oceano
por uma única frase, leria
todas as páginas de um
livro infinito.

Mas não me levantei
e a fome que corrói
a morte do meu corpo
fez da busca uma espera.

É preciso a crueldade.

Se nas feras ela aponta
para fora, em nós mergulha.

É preciso, portanto,
ser o próprio outro
que diz sem piedade.

Pois o levantar só existe
para a carne que tem gosto
da dor que sente.

Levanto-me, sou cruel, e digo:

houvesse um deus e um diabo,
castigo e salvação seriam
o único acordo. E todo homem
que se saiba homem, jamais
saberia se está ou não
de pé.

Por isso, contra
todos os acordos,
faço de minha vida
um eterno levante.

PARA QUE HAJA TEMPO

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Pintura: Francis Bacon – Três estudos de Lucian Freud (1969)

Há em mim,
para que haja tempo,
um desejo profundo
do desencontro.

E quando este se perder,
fazendo-me encontrar,
que eu esqueça o que se foi
e busque insaciável pelo
corpo que me seja próprio.

Por isso, em cada gesto
invento uma carne falsa
que sangre em todos
os que nunca lá estiveram.

Mostro o invivido aberto
em frente a um espelho
para que se possa vê-lo
de fora e dentro.

Junto ao desencontro,
para que haja ainda mais
tempo, o fracasso.

Certo horror à vitória
que guarda o manter
no lugar do criar.

E junto ao desencontro e ao
fracasso, o risco da estupidez.
Pois nada é mais desprezível
que a herança de uma vida
sem valor.

Pouco resta agora, mas
que seja dom e tempo
das coisas descobertas.

DÁDIVA

A mulher é algo que dorme.
Existem homens que sabem,
outros não. No sono lento
do repouso entregue, despertam
seus vincos como um eco distante
de tecidos molhados batendo
sobre a terra coberta de sangue.

Como duram as noites
em que espreito esse segredo,
completamente solitário e
exposto àquelas que, por
ignorarem o fluido ser,
têm o olhar perdido
de um lago seco.

Jorro e prazer. É também
nisso que a mulher se explica.
Um vaso de ouro rachado
por frestas nuas. Dois corpos
úmidos: suor primeiro, lágrimas
depois. O sagrado líquido
revelado no gozo interior.

E quando há amor à mulher
uma irreversível ruptura do tempo.
Os passados do amante e
da mulher não mais saberão
a quem pertencem. E por isso
lembro, pois se lembro amo, e se
amo digo para lembrar quem somos.

Dorme mulher, dorme
e escorre nos sonhos alheios.
Como homem que sabe
quero ver teu rosto em fuga
e trilhar a conquista longa
que me arrasta todos os dias
pela correnteza das águas.