Poesia

A CRUELDADE

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Certo dia
senti a fome,
mas não me levantei.

Talvez não fosse a fome,
talvez, houvesse segredos
que os homens não ousam
contar para si.

Gostaria de sabê-los todos,
mas não sei. Assim como
os seres ainda estranhos
da mesma espécie, olho para
o tempo como um primitivo.

Vi esse fundo obscuro
em todas as retinas nas quais
ousei olhar de frente. Sim,
nosso lugar é onde não sabemos.

E esperando que alguém
dissesse tais coisas,
não me levantei.

Eu cruzaria qualquer oceano
por uma única frase, leria
todas as páginas de um
livro infinito.

Mas não me levantei
e a fome que corrói
a morte do meu corpo
fez da busca uma espera.

É preciso a crueldade.

Se nas feras ela aponta
para fora, em nós mergulha.

É preciso, portanto,
ser o próprio outro
que diz sem piedade.

Pois o levantar só existe
para a carne que tem gosto
da dor que sente.

Levanto-me, sou cruel, e digo:

houvesse um deus e um diabo,
castigo e salvação seriam
o único acordo. E todo homem
que se saiba homem, jamais
saberia se está ou não
de pé.

Por isso, contra
todos os acordos,
faço de minha vida
um eterno levante.

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PARA QUE HAJA TEMPO

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Pintura: Francis Bacon – Três estudos de Lucian Freud (1969)

Há em mim,
para que haja tempo,
um desejo profundo
do desencontro.

E quando este se perder,
fazendo-me encontrar,
que eu esqueça o que se foi
e busque insaciável pelo
corpo que me seja próprio.

Por isso, em cada gesto
invento uma carne falsa
que sangre em todos
os que nunca lá estiveram.

Mostro o invivido aberto
em frente a um espelho
para que se possa vê-lo
de fora e dentro.

Junto ao desencontro,
para que haja ainda mais
tempo, o fracasso.

Certo horror à vitória
que guarda o manter
no lugar do criar.

E junto ao desencontro e ao
fracasso, o risco da estupidez.
Pois nada é mais desprezível
que a herança de uma vida
sem valor.

Pouco resta agora, mas
que seja dom e tempo
das coisas descobertas.

DÁDIVA

A mulher é algo que dorme.
Existem homens que sabem,
outros não. No sono lento
do repouso entregue, despertam
seus vincos como um eco distante
de tecidos molhados batendo
sobre a terra coberta de sangue.

Como duram as noites
em que espreito esse segredo,
completamente solitário e
exposto àquelas que, por
ignorarem o fluido ser,
têm o olhar perdido
de um lago seco.

Jorro e prazer. É também
nisso que a mulher se explica.
Um vaso de ouro rachado
por frestas nuas. Dois corpos
úmidos: suor primeiro, lágrimas
depois. O sagrado líquido
revelado no gozo interior.

E quando há amor à mulher
uma irreversível ruptura do tempo.
Os passados do amante e
da mulher não mais saberão
a quem pertencem. E por isso
lembro, pois se lembro amo, e se
amo digo para lembrar quem somos.

Dorme mulher, dorme
e escorre nos sonhos alheios.
Como homem que sabe
quero ver teu rosto em fuga
e trilhar a conquista longa
que me arrasta todos os dias
pela correnteza das águas.

ÍNDICO

Não há poemas a ler.
Pesam os diálogos.
Sei o porquê e justo por isso 
nada pode ser feito.
Não sou eterno,
a tristeza não é eterna.
Não serei o estúpido
que luta contra o tempo.

Aí ela está e eu também,
atravessando o índico
num mesmo barco; incidente
sem qualquer importância.

Acompanho meus contornos
em sua face, pois ainda que
o mar sirva de espelho
o sentir é mais fiel.

Vejo, sonho, toco. As coisas
são as mesmas até que se
queiram outras, assim como
a tristeza ao meu lado.

OUTRA

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Desenho: Rinus Van de Valde

Triunfamos pelo suor.
Vejo a mancha do sexo
vencendo nossos rostos,
o escorrer de um banho raro.

Teu sono me desperta,
por isso escrevo como
um sonho lento perseguindo
a fome do teu corpo.

Porque amar
é espera e travessia,

força impetuosa
que cresce devagar
e arrebenta a semente.

Quero-te sem nomes
para ter em presença
o dom do esquecimento.

Mais uma vez
outra mulher.

 

O ARTISTA

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É preciso, afinal
nascer vencido pela solidão.

Eu poderia lhes dizer sobre
a coragem do esquecimento.

Poderia lhes dizer ainda sobre
o inconstante corpo dos poetas.

Mas o louvor da impiedade
é para poucos.

E quem, afinal
sabe o que isso significa?

Não há hinos ou bandeiras
nos recantos obscuros da verdade,

apenas idiomas em urros
desabados sob o tempo do cruel.

Como sofrem essas
lindas bestas em criação.

Tudo, afinal
para sentir algo se dizendo.

E o que é dito persegue
as alcunhas torcidas do artista

como cobras camufladas
num pasto alagado.

Não há fuga
para o belo.

A LIBERDADE

Não há o que dizer.
Sou hoje o rastro desse segredo.
Meu corpo é uma despedida
na alvorada da miragem.
Penso na noite interminável.
Não há nada a dizer.

O tempo não precisa da vida,
por isso perder é tão sublime.
Não mais lutar com a memória.
Tenho em seres esquecidos
meus amores mais profundos.

Aprender o esquecimento
da próxima liberdade,
pois nisso ela se resume:
saber sem não mais lembrar.