Poesia

A CHUVA

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Há um rio no canto da rua
(brilham úmidos os postes)
amarelo refletido no chão.

Tudo agora é o ronco da noite,
pintura em ruídos selvagens.

A natureza brinca no escuro
e ainda mal temos fôlego
para entender vidas rompidas.

Palavras se perdem,
amores se cansam,
mas a crueldade do tempo
é o presente que nunca passa.

Assim, verei
nesses incontáveis
dias sinceros, o sol
morrer e nascer
sob minha pele.

Verei nesses instantes,
nossas vidas desaguando
em rios de lágrimas e rua.

Verei a história diluindo
o sangue turvo em
vontade espessa.

E pela manhã, o vento fará
nossas roupas de bandeira,
anunciando a chegada
da próxima estação.

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CANTO SEMINAL

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Hoje, longa noite,
após queda e ascenção
de tantas estátuas
sei que não és um túmulo
e à espreita do destino
este corpo se concentra
na névoa púrpura do tempo.

Enquanto meus cristais
forem pedras opacas
ruminarei a solidão
em dentes macios
e quando o sangue
conceber a vontade
beberão meu sumo rubro.

Hoje, longa noite,
vivem libertos
homens forjados
em mundos escuros
e por dedos curvados
segredos afiam
a lança coragem.

O difícil se tornará
ínfimo nada
fazendo o aço da carne
reluzir sob a lua
e que o lugar certo
seja sempre no agora
um excerto do futuro.

LIBERTAÇÃO

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Coragem é o primeiro nome
na vida de uma palavra,
esse título sem posse
que dá voz aos ditos.
Diz bem todo aquele
que desconcerta reações,
fazendo sangrar o sêmen
na boca de um povo.
Uma língua alforriada por si:
eis o segredo mais simples.
Duram séculos o fogo
das palavras, por isso
é preciso saber porque
devemos acendê-las.
Ao arder, capazes de inflar
o aço duro na carne fresca,
irrompem infâncias imaturas.
Mas nada pode ser feito
fora da guerra, isso significa
combater uma palavra
com outra mais precisa.
Para quem as entende, estas
servem ao único propósito
de decepar a covardia
e aos que se escondem disso,
continuem sufocados. Eu direi.

PRIMÓRDIO

Quando o tempo dissipa
o calor das palavras,
resta o sangue sem fúria 
que heróis de guerra
nunca conhecerão.

Estou aqui, pés vermelhos
no vazio campo de batalha.
Cada gota coagula esse solo
de centelhas virgens.
Assim começa a escrita.

Das coisas em mim,
corpos pertencem à morte,
vivem as afirmações. Por isso,
sendo o tempo sempre outro,
direi sim mais uma vez.