Ensaio

MÁQUINA-PENSAMENTO

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Motor [capa alternativa para a faixa “Theory of Machines” – Ben Frost]

Criar significa: conseguir ser mais preciso. Essa é a necessidade que leva à invenção de ferramentas. Sendo assim, Pensar é, antes de tudo, entender e, consequentemente, desenvolver as ferramentas que levam à construção do que se Pensa. Qual o nome dado a uma ferramenta que produz ferramentas? Uma máquina. Nesse caso, uma Máquina de Guerra, que só será útil na luta por aquilo que só pode ser alvo de conquista e nunca de posse: o Futuro.

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A Escola e o Caminho da Vontade

O local: Colégio Municipal Maria Isabel. A cidade: Macaé. O convite: realizar algum tipo de intervenção abordando temas como drogas, preconceito, sexualidade e família com turmas do 5º ao 9º ano. O desafio da Coordenação Geral de Políticas sobre Drogas (CGPOD) era o de abrir caminhos e construir pontes em um momento de mudanças e reestruturação da instituição; a aposta era de fazê-lo junto com os alunos, não apenas dirigindo, mas, antes de tudo, acompanhando as falas que emergiam das turmas. A escolha foi pelo formato de roda de conversa.

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As apresentações eram iniciadas com os nomes e formações dos membros da equipe, tanto as formais quanto as informais — Filosofia, Música, Medicina, Assistência Social, Poesia, Psicologia, Gestão Pública, Capoeira; estes e muitos outros campos de atuação se misturam para dar vida a atuação fomentada pela CGPOD. Em seguida era contextualizada a perspectiva da Redução de Danos, abordagem que propõe uma visão ampliada do cuidado, onde, ao invés da adoção de lógicas totalizantes (tudo ou nada) como meio de resolução, o foco se dá sobre o desenvolvimento de estratégias que visam reduzir os danos causados pelo envolvimento em situações prejudiciais, de acordo com o tempo e a capacidade de cada um. É importante ressaltar que não apenas o “problema” é visto de forma ampliada, mas também as próprias estratégias para lidar com ele. Sendo assim, estas devem envolver de maneira integrada as diferentes esferas da vida do sujeito: família, trabalho, amizades, relacionamentos amorosos, ambiente escolar.

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Abríamos então para a fala dos alunos, lançando os questionamentos: como andam hoje as relações na vida de vocês? Existe alguma que não esteja recebendo a devida atenção? Se houver, o que acham que poderia mudar? Nos primeiros momentos, a timidez era mais forte, mas com um pouco de persistência a vontade de pensar e compartilhar as questões que os acompanhavam falou mais alto. A partir dos relatos, pudemos perceber como questão principal o pouco diálogo entre as diferentes esferas citadas acima. Nenhuma grande surpresa até ai. O que nos deixou mais impressionados, no entanto, foi a abrangência e a profundidade da percepção deles sobre o que expressavam, mostrando que se havia algum obstáculo, este não estava localizado nos adolescentes. As peças que pareciam faltar nesse arranjo eram justamente, nas palavras de uma aluna do 8º ano, “paciência e respeito, isso que todo adolescente e jovem precisa”. Mais que isso, não apenas um espaço onde a fala deles pudesse ser validada pela escola ou pelos órgãos municipais, mas antes de tudo, por eles, entre eles. É pela criação dessa consistência de base que todo o resto pode se desenrolar. Infelizmente, a rotina e os compromissos fazem com que espaços como estes fiquem de lado. Alunos, professores e funcionários acabam por entrar em um ritmo onde há pouca abertura para momentos de desaceleração e mudança direção, o que reflete diretamente sobre o ambiente escolar.

Se a proposta era promover, antes de tudo, a mobilização dos alunos, coube abrir este espaço também para quem, de maneira independente, já se organiza em prol das próprias questões. Convite feito e aceito. O Coletivo Só Podia ser Preto, movimento macaense de jovens que busca afirmar a expressão da cultura negra através da fotografia e do diálogo, levou para a conversa o relato de experiência da formação de um grupo organizado autonomamente. Obstáculos, conquistas, desvios. Muitas das situações vivenciadas pelos participantes puderam ser compartilhadas e trocadas. O objetivo aqui, era de mostrar, por meio de um trabalho que já acontece e que vem ganhando território, que iniciativas como aquela são possíveis, cabendo a cada diferente coletivo a responsabilidade de analisar suas questões e desenvolver ua organização própria para dar conta delas. Aquele era um exemplo, a instigação foi: como então seria possível promover mudanças a realidade de vocês e da escola?

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E se falamos aqui em qualquer tipo de mudança não se trata de uma adequação a um modelo pronto ou de excelência onde tudo seria perfeito. O caminho é o inverso: a partir das demandas específicas da escola é que serão elaboradas saídas produzidas artesanalmente para aquela realidade, trajeto esse que não deixa de fora as controvérsias e as questões difíceis, pois é justamente falando abertamente sobre elas que se pode construir uma abordagem que não esconde a necessidade, se houver, de mudar. Se há um direcionamento, ele se encaminha para a saúde. Mas não uma saúde entendida como falta de doença ou como excesso de remédios e hospitais, uma saúde também ampliada, que se encaminha para a produção de ambientes que potencializem a expressão própria de cada sujeito sem abrir mão da coletividade.

Considerando o pouco tempo proporcionado pelo curto e disputado cronograma de final de ano, como poderíamos realizar um fechamento que expressasse as várias experiências criadas naqueles encontros e que, ao mesmo tempo, tivesse a “cara” de todos os envolvidos? Nos valendo do que inicialmente se mostrou um obstáculo, o fim de ano, surge uma proposta: registrar os alunos participantes em forma de fotografia e organizar uma exposição no evento de encerramento do colégio, que aconteceria no Teatro Municipal de Macaé. O Coletivo Só Podia ser Preto ficou responsável pelo registro das fotos e a CGPOD, junto à escola (que aqui inclui direção, orientação pedagógica e professores), articulou os horários e demais recursos.

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Como podemos avaliar a eficácia dessa ação? Acreditamos que, assim como na produção, o fechamento só pode ocorrer com a participação de todos. E mais ainda que uma avaliação, que se torna imprescindível para dar consistência e legitimidade técnica, é pela reverberação afetiva que um trabalho bem executado tem sua confirmação. E assim ocorreu. Pudemos perceber que já no segundo, e último, encontro com cada turma, todos os alunos já se mostravam à vontade para se colocar de forma mais relaxada, ficando mais integrados à roda, apropriando-se daquele espaço e tornando cada vez mais interessante a ideia lançada de realizar reuniões para que cada turma formule e reivindique suas prioridades de forma organizada. Muitos, em um outro momento, vinham nos falar sobre a vontade de desenvolver alguma atividade que tinham interesse e também sobre como repensaram alguns aspectos das próprias vidas. Houve também um questionário onde eles puderam escrever desde os sentimentos vivenciados durante os encontros, até sugestões para um futuro retorno da equipe. Nestes papéis, carregados de afetos, foi possível perceber claramente a potência de transformação de uma ação como esta. O “papo reto” e abordagens de temas “que ninguém quer falar” foram falas recorrentes.

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Foi pela prática que vimos o potencial daquele espaço se desdobrar e mostrar dimensões ainda não acessadas plenamente pelos que ali habitam. Todos os encontros só reforçaram a visão sobre o ambiente escolar como lugar fundamental de problematização de todos os temas sociais, é um espaço de formação de conhecimento, é um espaço de produção de vida. Apostamos em ações como estas, que integrem esferas cada vez mais abrangentes e heterogêneas do campo social, levando autonomia para cada local por onde passe. Acreditamos no serviço público como mediador de potencialidades já existentes nesses locais. Trata-se de uma forma de fazer e pensar que, além dos baixos custos de execução, requer um recurso simples e fundamental: vontade.

Cachorros não têm rede social – Interação ética do conflito

Man With Dog - Francis Bacon (1953)

Man With Dog – Francis Bacon (1953)

Alex, Bob e eu; todos em frente da casa durante a noite que já apontava alguns pingos de chuva. Em algum momento o cachorro preto se aproximou de Bob — não é nenhuma novidade naquele quintal o quanto aquele cachorro pode irritar. Ficou ali por algum tempo, mas Bob não demorou muito para fazer ele sair. Agarrou o tronco do cachorro e começou a dar algumas dentadas perto do rosto, os músculos das costas se contraiam junto com os do início das patas da frente, o pescoço se firmava com um balanço próprio, as unhas derrapavam na lama que já começava a se formar por conta da chuva; fora os rosnados, só pude constatar “eles estão lutando jiu-jitsu”. Era bem claro que o o cachorro preto estava estava apanhando, mas não havia sequer uma movimentação de contrataque. Quando pensei sobre briga, a percepção que logo nos vem é de uma agressão mútua que só termina quando um dos envolvidos está fraco demais para continuar. Fui levado longe demais por percepções comuns. Em certo ponto Bob, ainda que estivesse em uma clara vantagem, para o ataque e se afasta.

Pois bem, aqui os defensores da paz na terra e do espírito de bondade podem achar que a conclusão foi sobre a piedade e a compaixão, nada mais errado. Por duas razões. Em primeiro lugar o que estávamos vendo não era um ataque, mas um recado. Ainda sobre o jiu-jitsu, Alex seguiu, “sim, mas é pior que isso. Animais se comunicam por gestos, ações; é até ridículo você pensar um cachorro pedindo licença, a ação mais próxima para um ‘sai daqui’, dado de perto, é o que acabamos de ver”. Não era compaixão porque não era um ataque, ainda. O que nos leva a segunda razão. Não foi uma briga por um único motivo: o cachorro preto não revidou. Isso significa: não houve abertura corporal para a entrada em um conflito. Nenhuma palavra trocada, nenhum pedido de perdão. A aparente desistência de Bob se baseava em um sensibilidade que passa por uma ética corporal que não precisou de qualquer elemento externo ao acontecimento para se guiar; não se briga com quem não quer brigar, não se entra em conflito com quem não está disposto a conflitar, não por respeito, mas simplesmente porque, ainda que uma briga seja iniciada por um motivo específico (proteção de território, comida, etc) a questão do conflito é somente conflitar e não perder ou ganhar, assim, há apenas um decisão, conflitar ou fazer outra coisa. A concepção é exatamente essa: o ataque só foi uma mensagem porque não houve abertura ao conflito. Isso quer dizer: qualquer interação é conflitiva. Mas devemos lembrar que a briga é apenas uma das dimensões do conflito, dele pode emergir o cuidado, o sexo, a disputa… por isso é sempre tão ambíguo observar a troca de carinho entre animais, ações tipicamente vistas como violentas vão se mostrar.

É muito comum falar sobre linguagem simbólica e não simbólica para diferenciar humanos e animais — que em resumo dizem sobre a capacidade humana quase inesgotável de dar e modificar sentidos para uma mesma ação comunicativa — mas trata-se de um critério mal colocado. Isso porque essa interação foi abordada sob a perspectiva do mais complexo (homem) para o menos complexo (animal), determinando o último como uma limitação em relação ao primeiro. Não estou falando aqui do ainda pior “se colocar no lugar do outro”, a questão é que pensar passa por se valer das linhas de contato que aquilo possui, nem mais, nem menos. Tomar a linguagem humana como parâmetro em qualquer nível para entender a movimentação de seres que não possuem linguagem humana é querer falar pelos cachorros. Sendo assim, não seria a relação com essa corporalidade um critério muito mais concreto para conceber essa diferenciação? Ao conceber uma infinidade de códigos para dar conta das experiências, o humano acabou por criar camadas de símbolos que remetem umas às outras deixando a corporalidade como último plano, restando apenas como depósito de sintomas. A partir desse afastamento, proliferam-se práticas que insistem em conflitos unilaterais e que se sustentam quase que exclusivamente por razões exteriores a eles: briga por outra coisa, sexo por outra coisa, escrita por outra coisas, política por outra coisa. Tiranias contra outros e contra si mesmo. Resta ao corpo, ao invés de participar, se expressar e se modificar pelo conflito, seja ele qual for, se diminuir e sofrer com o deslocamento que os símbolos, claros ou obscuros, fazem exigir dele.

O conflito nunca desaparece, continua se dando mesmo por baixo de todos os panos e entre todos os corpos como condição para qualquer interação; e é por esse meio, pela vontade de conflitar como solo para a movimentação que a vida pode passar. Cachorros não têm rede social, não possuem ideais, não entendem nada sobre respeito, cachorros lutam jiu-jitsu; seja pelo consenso do totalitarismo ou pelo totalitarismo do consenso, ainda não entendemos isso muito bem.