Ensaio

SOBRE UMA FUNÇÃO DO RISO

21949959_369779910123663_2691059795213802925_o.jpg

Duas mulheres na janela – Bartolomé Esteban Murillo [1655-1660]

Alguém canta no palco. Ligados pelo riso, eu e outro ser humano na platéia. Mas algo diverge esses corpos, estamos em planos diferentes. Para ele, riso como zombaria, para mim, nada menos que contemplação do estado em que aquele ser havia me provocado. Quando não se consegue decidir se uma experiência é boa ou ruim, e esse era o caso, nosso corpo, marcado a ferro quente pela moral, emite espasmos, começa a falhar, começa a rir. E se o corpo que falha é o próprio, rir do outro é sempre um engano. Esse é, portanto, um dos momentos mais propícios para conhecer a postura de uma pessoa. E daquele outro se desvelou um riso de julgamento que jamais poderia vir de um pensador. O meu, se pudesse falar, diria: “e por acaso existe um aplauso mais sincero que o riso público? O corpo falha de maneira incontrolável e, sabendo disso ou não, expressa da forma mais explícita que foi tocado”.

 

Anúncios

O AFETO É UM DOMÍNIO DE AFIRMAÇÃO

Durante algum tempo o lugar do sonho havia se perdido. Eu não poderia admitir a existência de alguma dimensão da vida que, uma vez impondo sua existência, não servisse a meu propósito ou, ao menos, não colocasse um novo – permitir isso seria separar a realidade em dois. Que ele fazia parte de um processo de elaboração isso já era sentido, mas se ele passava por aí, era preciso torná-lo uma prática mais precisa: pensamento (minha única realidade e propósito).

Nessa noite foi possível acompanhar a fundação de um novo lugar por esse esforço. Ao me debruçar, enquanto acordado, sobre a questão do medo, o sonho a continuou. Mas se havia algo inédito, era o fato dessa compreensão não surgir depois de acordar, a partir de uma reflexão sobre imagens, mas durante a experiência onírica, como problema. Havia parado de sonhar e, finalmente, começado a pensar dormindo. O tema em questão se apresentou na proliferação encadeada de diversas afirmações afetivas: água negra explodindo as laterais do navio, vale turvo de alturas desiguais, risco solitário de crianças. E, de repente, ao ser literal quanto a isso, a poesia da linguagem se desvela. Não por desejo, mas pela necessidade de ser mais preciso. É certo que imagens são recrutadas. Por participar da dimensão física, a voz precisa dialogar com elas. Mas o afeto não é uma imagem, funda um tipo de realidade que não é o da relação – por mais que esse ainda seja um recurso improvisado para explicá-lo. O afeto é um domínio de afirmação e pensar é agir nesse domínio.

Uma criança perguntou se esse era um texto ou um poema. Perguntei o que ela considerava ser cada uma dessas coisas. A resposta foi que texto é uma história de ações, e poesia, uma expressão de afetos. Disse que estava me esforçando para viver antes dessa e de qualquer outra pergunta. Estava aprendendo a afirmar.

Nebulizador

IMG_20170622_214406

 

 

 

 

 

 

Dentre alguns dos equipamentos que atravessam minha vida (livro, placa de áudio, canetas, a própria mesa e outros não presentes nessa imagem) está o Nebulizador. Os anos de infância na relação com a asma e o fato de quase sempre dormir ao som de seu compressor nas noites ofegantes, fizeram do seu funcionamento – que une ruído (audição), vibração (tato) e fumaça (olfato) – uma companhia íntima.

O contexto era de conexão profunda entre o quarto em luz baixa e uma quase meditação no esforço da respiração.

Ainda hoje ele continua ligado nos e aos momentos de concentração, e já sem a doença como causa, foi convertido em instrumento de trabalho, produção e descanso, componente de uma atenção livre e sensibilidade profunda surgidas nas horas de recolhimento.

LIVRO DAS FACULDADES HUMANAS: 2ª AFIRMAÇÃO

Durante a noite sonhei todos os meus amores envolvidos em um cinema. Amores próximos, distantes, frequentes, dispersos, amores de alta velocidade, amores lentos, unilaterais, vias de mão dupla, plurilaterais, amores de rede, idealizados, realizados, presentes, passados, futuros, intermitentes, contínuos, apostados, lançados, investidos, plantados, colhidos, amores de viagem, amores de terra natal, amores industriais, artesanais, pintados, desenhados, dançados, escritos, ditos, cantados, tocados, disputados, esquecidos, lembrados, amores de penetração, amores que resistem, amores que resisto, amores irresistíveis, amores de gênero, classe, geografia, geração, amores de criação, de tipo de humor, de forma de estar no mundo, de maneiras de gastar o dinheiro, de infância, de adolescência, de atualmente, de velhice, de posteridade, amores belos, de domínio de beleza, feios, egoístas, compartilhados, tecnológicos, certos, incertos, amores de mesmo paladar, gostos diferentes, tristezas diferentes, alegrias diferentes, amores escolares, amores de rua, de casa, de praia, de serra, de discos, livros, vídeos, filosóficos, biológicos, físicos, químicos, linguísticos, musicais, etnográficos, sociológicos, cooperativos, empresariais, anarquistas, comunistas, capitalistas, liberais, conservadores, amores estéticos, ontológicos, científicos, mitológicos, sedentários, nômades, desencontrados, encontrados, descobertos, produzidos, armados, furtados, criminosos, frutos do acaso, rituais, amores entre humanos, entre deuses, entre demônios, entre humanos e deuses, deuses e demônios, demônios e humanos, de parceria, de confronto, de estudo, de desentendimento, de união, focados, desconcentrados, amores destas e de todas as outras ordens que a vida faz nascer ininterruptamente. Todos, até onde pude alcançar, estavam no mesmo cinema, como público que espera para entrar, como funcionários, como atores do filme, como pessoas que passavam pelas escadas rolantes, como aquelas que tive que deixar em casa para ir ao cinema, como aquelas que esperava encontrar no cinema e também aquelas que não esperava. Acordei chorando, lamentando por perceber que alguns daqueles amores, ao compreender o caráter de retorno e eternidade dessa trama, formavam a sensação de que eles não tinham mais lugar. E isso me impulsionou, por tempos, a realizar salvamentos como se eu também sentisse que eles não tinham mais lugar. Mas os lugares proliferam, abundam num jorro cristalino onde existirão quantos forem necessários para que a continuidade prossiga habitando todas as categorias. Essa é a existência. A própria morte é só mais um desses lugares, ocupados por aqueles que foram lançados ao fluxo do tempo, retornando ao presente como saudade (a memória do esquecimento). E, afinal, o que são esses lugares? Afirmações. O amor é a vontade do sim. O amor é sua própria condição e entendi que devo afirmar esses amores exatamente como dizem ser: sem lugar. Porque ao buscar seus lugares, seus eternos próprios, ainda que não saibam, continuarão retornando à existência pelo sim. E por isso os amo.

LIVRO DAS FACULDADES HUMANAS: 1ª AFIRMAÇÃO, VERSÍCULO I

Nietzsche, o ateu, foi o primeiro filho civilizado do Pensamento, descobrindo a vergonha no nascimento de seu mundo. Covardia é matar sem estar pronto para morrer. Foi assim que ele viu o senhor de sua era, Deus, cair pelas mãos do homem. As lágrimas que escorreram de seu rosto nunca carregaram a vontade de que nada fosse diferente. Elas apenas gritavam: vocês não sabem o que é a vida, confundem morte com negação e agora serão escravos de si! Lutarão curvados pela lembrança da doença ao invés de desejar de pé a dor como cura pelo esquecimento. Essas foram as únicas palavras proferidas naquele enterro vazio.

O INIMIGO COMO CONTINUIDADE DO ENTENDIMENTO

Francisco_de_Goya,_Saturno_devorando_a_su_hijo_(1819-1823)

Francisco de Goya – Saturno devorando um filho (1819-1823)

Entender um problema significa afirmar as razões para fazer guerra com aqueles que se debruçam sobre o mesmo problema. Em outras palavras, trata-se criar um contexto no qual possam surgir inimigos (onde se inclui também aquele que pensa). Mas ao contrário da concepção corrente de inimigo, que o presume como alvo de negação por meio de sua destruição, aqui ele serve como meio de afirmação e continuidade, dimensões que só podem se completar verdadeiramente por meio do movimento de antropofagia, ato que, ao contrário da morte, faz durar a existência de um corpo por outros.

Nessa perspectiva, o inimigo é o aliado no enfrentamento de um problema, uma vez que superá-lo significa dar continuidade ao movimento de compreensão do outro ao incluir sua posição como via de afirmação da continuidade da guerra, isto é, da possibilidade da produção de outros infinitos contextos onde os vínculos se estabeleçam segundo a afirmação do outro e não da negação (ausência de canibalismo).

Disso, pode ser retirado um critério de avaliação sobre a densidade do entendimento: desconfie de si e daqueles que dizem entender algo sem ter desenvolvido outra coisa. Desconfie ainda mais quando, havendo outra coisa, ela não tenha o único objetivo de se tornar o inimigo de outro corpo que possa comê-la. Nesses casos, há no máximo curiosidade e negação, covardia em relação à luta. A guerra, ou caso se prefira, a vida, pertence ao entendimento e à afirmação, coragem e vontade de continuidade por outros corpos.

MÁQUINA-PENSAMENTO

Máquinaq

Motor [capa alternativa para a faixa “Theory of Machines” – Ben Frost]

Criar significa: conseguir ser mais preciso. Essa é a necessidade que leva à invenção de ferramentas. Sendo assim, Pensar é, antes de tudo, entender e, consequentemente, desenvolver as ferramentas que levam à construção do que se Pensa. Qual o nome dado a uma ferramenta que produz ferramentas? Uma máquina. Nesse caso, uma Máquina de Guerra, que só será útil na luta por aquilo que só pode ser alvo de conquista e nunca de posse: o Futuro.