Conto

Estou muito cansada disso tudo

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Foto: Sávio de Araújo

Estou muito cansada disso tudo, estou cansada de sentir essa vida sob meus pés dessa forma. Eu tentei, juro que tentei, mas sinceramente não consigo é demais para mim, tudo é demais, uma viagem, um encontro, um copo quebrado. E o pior de tudo é que consigo ter plena consciência disso, quase como naqueles casos onde se está lúcida durante uma cirurgia e é possível sentir tudo, mas não se pode comunicar nada. É assim que vivo, é assim que não me comunico. Cada passo treme meus joelhos, cada pensamento me remete ao que não posso lidar. O peso no meu peito é constante. As lágrimas tornaram-se minhas melhores amigas, elas me lavam e me secam. No espelho o que posso constatar é meu corpo, que nunca está onde eu acho que deveria. As roupas são estranhas e desconjuntadas. Já cheguei a sentir raiva de quem estivesse feliz e passasse na minha frente, porque tanta alegria? Não era claro que estava tudo horrível? Hoje nem mais isso, sou uma ilha, ando inerte sem esperar que nada possa me reanimar. Não, não é uma questão de pena, é a constatação do que está se dando. Duas décadas, tudo o que vivi para trás já está muito longe e para frente há um abismo de indiferença em relação a mim mesma. As lamentações vêm vazias, perderam o sentido original há muito tempo, tempo suficiente para esquecer nomes, datas e talvez o mais importante: o som da voz daqueles que nos falavam a ponto de irritar. Um mundo vai ganhando o silêncio de várias vozes indiferenciadas, é seco, é morno. Sinceramente não sei muito bem o que está me empurrando, eu até falo que é Deus, mas bem poderia ser qualquer outra coisa, não me importa. O que parece mesmo é que isso já deveria ter acabado, que outra coisa já houvesse aparecido, mas não apareceu.  Fugir já não é mais uma opção, resta-me sentar nessa areia molhada, com esse vento gelado que já expulsou qualquer um da beira-mar e encher meu peito de maresia, encher minha vida de ar só para depois desinflar. Já tentei de tudo, é sério, igreja, terreiro, chácaras, espiritismo…só que em todos, ficou exatamente o sentimento de que havia algum nível daquilo que eles não podiam alcançar, não era nem que estivesse escondido, estava até bem claro e delimitado para mim, mas não para eles, não para ninguém. Acho que já enchi o saco de muita gente falando sobre isso, tanto que até parei, quem não pergunta acha que estou bem e que tudo foi só um momento. Talvez tenha sido e eu estou me martirizando, talvez não tenha sido e estou de fato passando pelo que tem de ser passado, ou talvez nada disso, talvez eu só estivesse no lugar errado na hora errada, talvez esse planeta esteja no lugar errado e na hora errada. Já fiz muitas coisas, todas ditas novas, para variar um pouco. Mas que novidade? Pessoas, do mesmo jeito onde vou, pessoas, só pessoas. E eu aqui com meu peito amassado, o que sabem elas afinal? Nada. Deito só esperando o sono, acordo porque tenho que comer para me manter viva, viva para que? Nem eu sei, deve ser o instinto falando mais alto. Acordo e encaro aquele espelho de novo, meus olhos molhados de novo. Passo pela sala bem rápido fingindo que meus olhos estão coçando. Por que isso acontece? Não era tão bom ficar brincando e vendo televisão? Na época onde isso não era sequer uma questão a ser pensada, era só o que era, nada mais. Hoje são muitas coisas, muitos esquemas, muitos problemas, muitas dificuldades. Às vezes vem uma onda de euforia, tudo é bom, mas depois piora, e muito. O problema é que depois de um tempo vem o entendimento de que aquele bom é tão fugaz quanto a esperança de algo melhorar e ai nem ele acaba servindo direito, porque já vem acompanhado da promessa do fundo do poço. É tudo uma questão de expectativa.

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