Palavra

Simone Weil e a brutalidade

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“Não acreditemos que por sermos menos brutais, menos violentos, menos inumanos do que aqueles que enfrentamos, nós prevaleceremos. A brutalidade, a violência e a inumanidade, possuem um prestígio imenso que os livros escolares escondem das crianças, que os homens feitos não confessam, mas que subsiste sempre. As virtudes contrárias, para que possuam um prestígio equivalente, devem ser exercidas de maneira constante e efetiva. Qualquer um incapaz de ser tão brutal, tão violento e tão inumano quanto um outro sem, no entanto, exercer as virtudes contrárias, é inferior a esse outro em força interior e prestígio; e não resistirá diante dele.”

— Simone Weil. Œuvres complètes II, p. 117. [tradução própria]

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A CHUVA

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Há um rio no canto da rua
(brilham úmidos os postes)
amarelo refletido no chão.

Tudo agora é o ronco da noite,
pintura em ruídos selvagens.

A natureza brinca no escuro
e ainda mal temos fôlego
para entender vidas rompidas.

Palavras se perdem,
amores se cansam,
mas a crueldade do tempo
é o presente que nunca passa.

Assim, verei
nesses incontáveis
dias sinceros, o sol
morrer e nascer
sob minha pele.

Verei nesses instantes,
nossas vidas desaguando
em rios de lágrimas e rua.

Verei a história diluindo
o sangue turvo em
vontade espessa.

E pela manhã, o vento fará
nossas roupas de bandeira,
anunciando a chegada
da próxima estação.

CANTO SEMINAL

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Hoje, longa noite,
após queda e ascenção
de tantas estátuas
sei que não és um túmulo
e à espreita do destino
este corpo se concentra
na névoa púrpura do tempo.

Enquanto meus cristais
forem pedras opacas
ruminarei a solidão
em dentes macios
e quando o sangue
conceber a vontade
beberão meu sumo rubro.

Hoje, longa noite,
vivem libertos
homens forjados
em mundos escuros
e por dedos curvados
segredos afiam
a lança coragem.

O difícil se tornará
ínfimo nada
fazendo o aço da carne
reluzir sob a lua
e que o lugar certo
seja sempre no agora
um excerto do futuro.

LIBERTAÇÃO

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Coragem é o primeiro nome
na vida de uma palavra,
esse título sem posse
que dá voz aos ditos.
Diz bem todo aquele
que desconcerta reações,
fazendo sangrar o sêmen
na boca de um povo.
Uma língua alforriada por si:
eis o segredo mais simples.
Duram séculos o fogo
das palavras, por isso
é preciso saber porque
devemos acendê-las.
Ao arder, capazes de inflar
o aço duro na carne fresca,
irrompem infâncias imaturas.
Mas nada pode ser feito
fora da guerra, isso significa
combater uma palavra
com outra mais precisa.
Para quem as entende, estas
servem ao único propósito
de decepar a covardia
e aos que se escondem disso,
continuem sufocados. Eu direi.

F. NIETZSCHE – A GAIA CIÊNCIA / AFORISMO 84. DA ORIGEM DA POESIA

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[…] “Supondo que em todas as épocas venerou-se a utilidade como a divindade suprema, de onde teria vindo a poesia? – essa ritimização da fala, que antes atrapalha do que promove a clareza da comunicação, e que, apesar disso, brotou e continua a brotar em todo lugar desse mundo, como que zombando de toda útil pertinência! […] mediante o ritmo, um pedido humano deveria inculcar mais profundamente nos deuses, depois que as pessoas notaram que a memória grava mais facilmente um verso que uma fala normal; também acreditaram que por meio do tique-taque rítmico podiam ser ouvidas a distâncias maiores; a oração ritmada parecia chegar mais perto do ouvido dos deuses. […] o ritmo é uma coação; ele gera o invencível desejo de aderir, de ceder […]. Quando era perdida a justa tensão e harmonia da alma, era preciso dançar, seguindo a cadência do cantor – era a receita dessa terapia. Melos [melodia] significa, conforme sua raiz, um calmante, não porque seja calmo em si, mas porque seus efeitos acalmam. Resumindo e perguntando: havia, para a antiga e supersticiosa humanidade, algo mais útil que o ritmo? […] sem o verso não se era nada, com o verso, quase um deus. Um sentimento assim fundamental não pode ser inteiramente erradicado – e ainda hoje, após milênios de combate a tal superstição, até o mais sábio entre nós é ocasionalmente turvado pelo ritmo. Não é divertido que mesmo os filósofos mais sérios, normalmente tão rigorosos em matéria de certezas, recorram a citações de poetas para dar força e credibilidade a seus pensamentos? – e, no entanto, uma verdade corre mais perigo quando um poeta a aprova do que quando a contradiz! Pois, como diz Homero: “Mentem demais os cantores!”.

[NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Tradução de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.]