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ELEMENTOTEXTO (ou remix textual)

ELEMENTOTEXTOlogo

No fim de 2012, iniciei um projeto literário que ficou pelo caminho. “ELEMENTOTEXTO” surgiu em um momento de pesquisa intenso sobre questão do remix. Tudo começou no primeiro (ou segundo) semestre da universidade quando o então professor substituto, Roberto Preu, apresentou em sala o documentário “RIP!: Um manifesto Remix”. Como o próprio nome sugere, trata-se de um documentário que busca fazer um levantamento sobre a prática do remix , suas implicações para a produção social da arte e sua relação com a memória, a lei e a questão da autoria. Muitos desdobramentos surgiram desde então, cabendo para isso outras postagens melhor direcionadas para o tema.

O blog do projeto ficou parado, mas ainda ativo para o caso de algum desavisado topar com ele pela web. Se puder ser resumido em uma frase, seu intuito é: realizar o remix com elementos textuais de qualquer ordem. A matéria-prima (os elementos) vem sempre dos autores e obras lidas no período de criação de cada constructo que chamei de elementotexto.

O esquema é simples, todas as montagens são feitas apenas com citações diretas de outros textos, qualquer tipo de texto pode entrar em uma montagem, filosofia, publicidade, um ditado, letras de músicas, biologia, falas de filmes etc.

Como será possível perceber não se trata de uma construção muito simples, visto que, busco retirar cada trecho da obra exatamente como ela está, o que demanda uma busca minuciosa por orações que componham sentido semântico e concordem gramaticalmente entre si. Assim, sua produção demanda um certo tempo e pesquisa, o que, entre outros fatores, acabou contribuindo para seu abandono (até agora) temporário. A ideia inicial era fazer dele o próprio trabalho sobre o qual me debruçaria no campo da palavra, contudo, ao abrir este blog e rever alguns dos projetos deixados de lado, ficou claro que, ao menos para mim, ele se destinaria a compor um estilo menor, um subgênero dentro do que escrevo. Por isso, os elementostextos voltarão a se produzir com a infrequência demandada por seu ritmo de produção. Com alguma sorte e persistência, espero que eles possam ganhar progressivamente mais consistência. Por enquanto, serão postados os já feitos.

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borges-pessoa-proust-lembrança-memória-percepção-sonho

Pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos, sustenta em círculo, a seu redor, o fio das horas, a ordenação dos anos e dos mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Rostos que na verdade são máscaras, palavras de linguagens muito antigas, num segundo, eu passava por sobre séculos de civilização. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam. E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe. O movimento parado das árvores; o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo. Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço. A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros , serei todos ou ninguém. Serei o outro. Recompunha aos poucos os traços originais do meu próprio eu. Assim acordava, meu espírito agitando-se para tentar saber, sem o conseguir, onde me encontrava, tudo girava ao meu redor no escuro, as coisas, os países, os anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mexer, buscava, segundo a forma do seu cansaço, localizar a posição dos membros para daí deduzir a direção da parede, a situação dos móveis, para reconstruir e denominar a moradia em que se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, dos joelhos, dos ombros, lhe apresentava sucessivamente vários quartos onde havia dormido, ao passo que em seu redor as paredes invisíveis, mudando de lugar conforme o aspecto da peça imaginada, giravam nas trevas. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada a sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entresonhos. A verdade é que, devido à essas evocações turbilhonares e confusas, ao eterno estar no bifurcar dos caminhos, mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo.

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ELEMENTOS:

1. BORGES, Jorge Luis. Funes, o Memorioso. Trad. Marco Antonio Franciotti. In:______. Prosa Completa. Barcelona: Ed. Bruguera, 1979, vol. 1., p. 477-484.
2. ______. O sonho. In: ______. Poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p.166.
3. PESSOA, Fernando. Floresta do Alheamento. In: ______. Richard Zenith (org). Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 466-472.
4. PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Trad. Fernando Py. São Paulo: Abril, 2010, Clássicos Abril Coleções, v.34.

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