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[Documentário] Un pas de côté – Michel Charron e Anamaria Fernandes (2010)

Cartaz UPDC versão 2 - web

 

UN pas des côtés. Direção: Michel Charon e Anamaria Fernandes. Produção: Associação Dana, DRAC Bretagne, Hôpital Psychiatrique Guillaume Régnier. Thorigné Fouillard: Independente, 2010. 1 DVD (33 min), NTSC, color.

[PT/BR]

A partir do trabalho da “Compagnie Dana” (Companhia Dana), em 2010, Anamaria Fernandes desenvolveu em Thorigné Fouillard (França), no Centro Hospitalar “Placis Vert” (Casa de Acolhimento Especializado), um trabalho de dança improvisação com jovens autistas. O filme documentário “Un pas de côté” (Um passo de lado), dirigido por Anamaria e Michel Charon, foi concebido entre junho e dezembro do mesmo ano. As cenas captam alguns dos fortes momentos vividos por cada um dos participantes.

[FR]

En 2010 Anamaria Fernandes a développé à Thorigné Fouillard, dans l’établissement Le Placis Vert au sein de l’unité les Alizés, un travail de danse improvisée avec des jeunes adultes présentant des déficiences intellectuelles profondes. Le film documentaire “Un pas de côté”, réalisé par elle-même et Michel Charon a été conçu entre les mois de juin et décembre 2010.

[LINKS]

http://www.dansesdana.com/
https://www.facebook.com/CieDana

***

Anamaria Fernandes:

Formada em Dança pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, com Mestrado em Artes do Espetáculo na Universidade de Rennes 2, França e Doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP e em Artes do Espetáculo na Universidade de Rennes 2 com bolsa cedida pelo CNPQ, Anamaria Fernandes Viana trabalha com dança contemporânea e improvisação, com a participação de músicos, atores e/ou artistas plásticos na França e no Brasil. Desde 1998, tem se dedicado de forma particular à dança com pessoas com deficiência mental (leve, média ou severa), tendo como diferencial de seu trabalho junto a este público a abordagem da dança pelo viés da arte. Realiza suas atividades entre o Brasil e a França, como professora e/ou palestrante convidada de diversas instituições, sejam elas de ensino ou do campo da saúde. Dentre suas produções, realizou documentários sobre o tema, alguns deles financiados pelo governo francês. É professora do Curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal de Minas Gerais | (Currículo Lattes – http://lattes.cnpq.br/1812563027585805)

Michel Charon:

[PT/BR]

Cineasta e Fotógrafo, desde 2000 realizou diversos trabalhos. Atuando junto a diversas companhias de teatro e dança na área de criação visual (vídeo), partiricipa também de exposições fotográficas. Com Anamaria Fernandes, realiza em parceria dois documentários: “La danse au logis” e “O Projeto”.

[FR]

Cinéaste et photographe, il réalise plusieurs documentaires depuis 2000. Il travaille aussi pour différentes compagnies de théâtre et de danse avec des créations visuelles vidéo et participe aussi régulièrement à des expositions photographiques. Avec Anamaria Fernandes il co-réalise deux documentaires : « La danse au logis » et « O Projeto ».

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O Cheiro da Sujeira

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Seguindo a interpelações cinematográficas, o encontro com um filme dessa vez gerou um poema. A opção aqui é por  não limitar nenhuma forma de expressão que surja  e assim foi. “O Cheiro do Ralo”  é um longa-metragem brasileiro de 2007 dirigido por Heitor Dhalia e baseado no livro homônimo do autor Lourenço Mutarelli.

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SUJEIRA
[Macaé, 04.08.2016]

o cheiro do ralo no fundo do poço

No ralo
cabelos caídos
misturados com gozo
formando um único bolo
de porra

embolando
partes longas e finas
que sobrevivem ainda depois da morte
misturadas com aquelas que com sorte
poderão um dia cagar

poderão um dia
produzir esses dejetos

dirigidos para as arestas rejuntadas recobertas de piso frio nos banheiros
buracos chamados de bueiros
locais sujos e imundos
protegidos pelas solas dos sapatos

o fundo do poço no cheiro do ralo

Querem fazer acreditar que seja pela gravidade
que seja pela utilidade
que seja pela praticidade
que seja pela necessidade
que ralos encontrem-se assujeitados
aos cantos
ao não visto
ao caminho desconhecido
aos mitos e lendas de seu desembocar

o poço do fundo no ralo do cheiro

Lá está, sempre esteve e sempre estará
onde os mal ditos e esquecidos sonharam e disseram

lá está, para lá escorre:

O prazer e o orgasmo das putas

A morada dos mendigos

A língua e o infinitivo dos loucos

O olhar desarmado do desconhecido

O toque profundo de quem não possui nada do tudo que vive

O erro visto como acerto necessário para percorrer uma trajetória

A passagem por vias de atrofia fincadas entre as pedras retangulares das ruas

As bandeiras desenhadas com sangue

As árvores suprahermafrodíticas gestadoras de todos os frutos

Os corpos condutivos por suor e contato

As nações governadas pelos ventos uivantes da força e liberdade que balançam árvores
e deixam folhas secas recobrindo o chão tornado-o agora um barulhento aviso
indicador de passos pesados e frios que não sabem dançar com a chegada do outono

o ralo do cheiro no poço do fundo

Um ralo vira ralo
quando fede
qualquer coisa
quanto mais real
mais suja

mais dente cerrado
mais emaranhado
mais puxado e desfiado o mundo
torcido e retorcido nas voltas
do tempo e da matéria
dos intestinos
remoendo a carne da terra
pertencente àqueles donos da escritura chamada Coragem
lavrada em lugar nenhum
e reconhecida por quase ninguém
terras que assim seguem
por demandarem como adubo
a merda mais pura
arada com as mãos

as mesmas que comem
que oferecem carinho aos amantes e filhos
que moldam os instrumentos
que rasgam a própria cara
e que por fim
arrancam raízes
nutridas umas pelas outras
na rede infinitamente conectada e indiscernida da existência

o cheiro do ralo no fundo do poço
o fundo do poço no cheiro do ralo
o poço do fundo no ralo do cheiro
o ralo do cheiro no poço do fundo

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O cheiro da merda no fundo do rabo

Pulp Fiction, tempo e cotidiano

Pulp Fiction

Este é nada mais (porém não apenas e não menos) que um filme sobre o cotidiano, sobre o tempo. As infindáveis discussões sobre a conexão dos fatos, pessoas, objetos, ações e reações nele presente compõe uma dimensão semântica inerente a qualquer obra, a qual ganha importância fundamental, não por si mesma enquanto conteúdo, mas como meio de passagem. Isso porque estas servem como agentes de relevo topográfico para a narrativa. Há um ritmo claramente demarcado: longos momentos de movimentações quase inertes, seguidos de outros, mais curtos e intensos, e para dizer no mínimo, peculiares. Esses diferenciais tão contrastantes – uma discussão sobre a qualidade de uma massagem nos pés se alterna com uma série de mortes a queima roupa – por si só já poderiam indicar mudanças em uma linha de acontecimentos e causar o encantamento pela mistura bem encadeada dessas cenas, contudo, há mais que isso, ou melhor, menos. O desenrolar das diferentes histórias não se sustentam pelo o que ocorre nelas, mas sim pela entrada em cada novo braço de tempo. Ainda que os fatos recorrentemente vistos como marcantes sejam impressionantes, estes se tornam apenas parte de uma fina montagem de fortuidades que dão o seguimento da obra. Pouco interessa o momento de tensão em que Vince se vê na única chance de salvar a vida de Mia, e a sua própria, ao ter de acertar uma agulha, talvez quase maior que a seringa que a carrega, no peito da nova mulher de seu chefe. Interessa ai um evento quase desprezado, ou tomado como uma obviedade: Mia encontrou o saco de heroína, causador de sua overdose, ao ser confundido com cocaína, no bolso do casaco que Vince havia deixado com ela.

Mia e a Heroína

Este momento, um simples achado dentro de um bolso, fez com que um rumo completamente novo se instaurasse no percurso dos personagens envolvidos. E novo aqui não quer dizer sem relação nenhuma com qualquer coisa exterior ou anterior ao ocorrido, quer dizer uma movimentação não esperada dentro do espectro de elementos usual e explicitamente considerados. E isso não se dá apenas nesse caso, mas em todas as múltiplas narrativas do filme. É um relógio esquecido que faz com que Butch passe de uma fuga angustiada para um porão imundo ao lado de Marcellus, que ao fim do episódio, perdoa sua dívida, fazendo com que a mesma fuga seja transmutada em uma tranquila partida em cima de uma Chopper junto a sua delicada e francesa namorada. É um tiro tão acidental que beira a comicidade que faz com que Vince e Jules, de uma simples saída de mais um serviço bem executado, tenham de lidar com a parte mais sofisticada de um trabalho usualmente sujo – o nome “O Lobo” não aparece por acaso.

Butch e o Relógio 3

Butch e o Relógio 4

São os múltiplos tiros acidentalmente mal sucedidos disparados contra a dupla que fazem com que o desfecho quase previsível da cena final no café, onde dois assaltantes inexperientes se deparam com um exímio atirador como Jules, torne-se inesperado. Os exemplos formam uma imensa lista, mas o objetivo aqui não é a quantificação. A questão passa por observamos que, apesar de todas as tentativas dos personagens de esquematizar o curso dos fatos, a cada nova mínima ruptura um novo caminho, uma nova história se coloca a partir da demanda desses cenários por outras atitudes, posturas, pensamentos, reações e relações.

Essa dinâmica aponta para o encadeamento do próprio tempo na medida em que busca pensá-lo não como uma linha contínua e progressiva de acontecimentos, mas como uma série de rupturas alucinadas que jogam intenções, trajetórias e identidades em seu curso que, ao mesmo tempo em que mantêm ligações com o passado, se amarra com o presente constantemente renovado para apontar na realidade a constante criação da realidade que faz com que novas acontecimentos possam se desenrolar.

Tiro Acidental

Tudo poderia se tratar de uma mera ficção se o mesmo não fosse verificável fora da obra. Há menos por se tratar de um filme sobre o cotidiano. Ainda que esta afirmação possa soar forçosa, basta um exercício de percepção um pouco mais apurado para, ao menos, considerá-la. No que uma carteira esquecida na mesa do restaurante pode transformar uma viagem? Como uma palavra mal entendida pode transformar o rumo de uma conversa? O mesmo, exatamente o mesmo, se passa a cada mínimo instante de nossas vidas. Tal compreensão permanece inaudita talvez por um certo tipo de ritmo perceptivo que, por comodidade, caminha a passos mais largos, fazendo com que identifiquemos de maneira muito menos sensível as mudanças dos braços temporais. A astúcia de Tarantino aí foi a de trazer um cotidiano extremamente incomum para a maioria do público. A escolha por narrar a saga de um homem que se vê desestruturado por esquecer sua carteira poderia não servir ao que o diretor pretendia abordar, mas ao se valer do cotidiano de assassinos, traficantes, usuários de drogas “pesadas”, sádicos e lutadores frustrados (o que por si só já renderia um filme chamativo) – tornando-0, muito provavelmente, pouco atraente para aqueles que já vivem nesse meio – o diretor deu força ao diferencial existente entre as mudanças de cada série de acontecimentos, retirando assim a banalidade do cotidiano e mostrando que o tempo é, de fato, o cotidiano da vida.