Ensaio

RAP PORTUGUÊS E RAP BRASILEIRO

Uma das cruzadas do Rap produzido fora dos Estados Unidos é conseguir metrificar o idioma local. Não é difícil perceber que o Português é uma língua mais complexa que o Inglês. Isso faz com que criar um flow confortável (para os rappers e o público) por aqui seja mais difícil. Ontem o Alex Gr me mostrou essa faixa do REGULA e o DILLAZ e a reação foi imediata: esse nível de domínio de Rap só poderia mesmo aparecer em um país que fala o idioma há mais tempo. Ao ouvir não há como negar que o artista vem de Portugal, e por isso, chamamos isso de Rap Português. No Brasil isso não basta. Assim como os Estados Unidos, falamos o idioma do país que nos colonizou, mas somos muito diferentes. O trabalho atual dos (verdadeiros) produtores e MCs brasileiros é o de, assim como nos EUA, criar um idioma próprio para as rimas cantadas no nosso território.

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PERFIL CRONOTÉCNICO: TEMPO, TÉCNICA E PERSONALIDADE

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Foto minha (usando o celular) tirada por minha irmã de 9 anos (com o celular) para postar nas próprias redes sociais.

A relação com o tempo é um aspecto fundamental na formação cognitiva humana. A divisão social criada entre “atrasados” e “pontuais” é uma prova disso. Ainda que esses termos sejam vistos apenas como defeito/qualidade, dizem diretamente sobre como cada tipo de pessoa entende e organiza suas experiências. A adoção da relação temporal como critério base de avaliação psicológica facilita, por exemplo, o desenvolvimento de estratégias para sujeitos de atenção predominantemente flutuante – os hipocondríacos podem ler: portadores de déficit de atenção. Nesse caso, o atraso nos compromissos e, consequentemente, na aprendizagem, não são efeitos colaterais, mas a própria temporalidade de quem percebe em maior quantidade e precisa de mais tempo para pensar. Mas isso não basta. Considerando a presença massiva da tecnologia moderna em nossas vidas, torna-se necessário também identificar o tipo de relação existente entre essa temporalidade e os objetos técnicos aos quais esse sujeito tem acesso (Facebook, Instagram, YouTube, Spotify: o tipo e a quantidade de redes sociais nas quais se está inserido influencia diretamente no funcionamento da atenção, memória, linguagem e outros processos cognitivos). Isso que chamo aqui de perfil cronotécnico é só um dos muitos novos critérios que a Psicologia precisará investigar se quiser produzir teorias da personalidade que incluam de maneira mais profunda o que hoje tem peso dobrado na formação e mudança da personalidade de todos.

O artista é uma tartaruga reversa

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O artista vai a lugares que só ele pode ir. Não por exclusividade, mas por uma abertura de sensibilidade que convoca violentamente seu corpo ao verdadeiro trabalho — não aquele que parte de uma demanda por teto ou comida, carro ou roupa, felicidade ou bem-estar, aprovação ou reconhecimento — da vontade que não tem dono nem cara, ao desejo mais vivo em sua raiz, e talvez por isso, indomável. É nesse campo, onde se foram as necessidades impostas, onde todos se assujeitam da participação que, muito estranhamente, o artista se sente em sua terra natal, sentimento esse quase esquizofrênico. Como? Como amor ao caos? Como amor à incerteza? Como amor à experimentação sem garantias? Mas, por azar ou sorte, para estes, é assim. Tornar-se artista é, entre muitas outras coisas, se apropriar, a seu próprio modo, desse “assim” (o que se chama de “estilo” é nada mais que esses modos). Como todo trajeto, esse caminho possui muitas variações, o que no caso desse grupo estranho gera um livro, uma vestimenta, uma casa, um álbum, uma transa, um poema, um algorítimo, um quadro, um filme. E que não se faça apologia aos estados de exaltação, ou mesmo de depressão, como matéria de trabalho; o artista não é um dependente de nada, interessa tocar a sensibilidade do que vier, saber entrar, saber passar, saber sair, com consistência e a imprudência atenta que insistem em nos dizer que devemos deixar de lado.

Sendo este indivíduo que expressa corpo para tais coisas, ele faz algo: dá corda pra coisa pouca que costura a roupa de quem vive, mas que não percebe isso. Muitas das experiências, quem vive, acha que vive sozinho. Acha que só uma pessoa sofre daquele jeito, que só ela ri daquele jeito, que só ela se movimenta daquele jeito, que só ela brinca daquele jeito, que só ela sente saudade daquele jeito, que só ela se comunica daquele jeito, que só ela é ela. Mas o que deixa tudo ainda mais estranho nisso tudo, é descobrir que ninguém é ninguém, que todos estão povoados pelas coisas mais improváveis (em intensidade e quantidade), que somos frutos de uma cidade, de um bairro, de uma escola, de uma(s) amizade(s), de uma forma de amar, de uma forma de dar esporro, e que por isso, somos seres coletivos, ainda que trancados em nossos quartos.

No entanto, esses povos que nos habitam, esses bárbaros que invadem as terras de quem só quer viver protegendo seu pedaço morto de terra cercado por muros, costumam assustar quem não entende que eles nunca quiseram invadir, mas apenas ocupar os espaços por onde passam, fazer da terra um meio e nunca um fim. E o pior: compreendendo ou não isso tudo, a afetação não deixa de existir, para ninguém. O artista entende que a questão nunca foi com ele, nem com qualquer um que seja, não é pessoal, nunca foi. A questão são forças, são povos e, portanto, o artista não tem mais o que fazer em si. Seu eu vira tudo, vira qualquer coisa. Sendo assim, é com esse meio que ele passa a dialogar e essa se torna a destinação do que é feito. A sua comunicação passa a afetar campos sensíveis antes não concebidos. Mas se isso é possível, só é por conta do conjunto de forças comum que perpassam a existência de qualquer indivíduo: homens, pedras, baratas, flores, bactérias, átomos, neutrinos, galáxias. Sem o coletivo, o artista individualiza sua produção e passa a falar de si para si, e assim, morre (em todos os sentido que essa palavra pode ser).

Isso que chamam de vida é massacrado por tantas coisas que quase ninguém consegue respirar. O artista é uma tartaruga reversa: mergulha para inalar o ar e volta para viver na superfície. Sua obra só pode ser viva se retorna para este mesmo social e deixa que essas forças possam ter a chance de tocar outros corpos e dialogar com o corpo vivo do que foi concebido, reinserindo isso nisto, fazendo os povos prosseguirem para novos campos. Mas é preciso deixá-los caminhar por ai, deixá-los livres para que possam, ao encontrar com quem os possa receber, ter a chance de andar, fazendo assim com que o indomável ganhe diferentes corpos e siga produzindo vontades livres.