Autor: Sávio de Araújo

VI

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Desenho: Slimesistren

Sei que ninguém ainda
escreveu sobre teu rosto
e mesmo que o tenham feito,
devo convencê-la de que esta
é a primeira vez; de que o que vejo
se encontra num futuro impossível
sem o que estou prestes a dizer.

Sou agora um estranho quebrando
ao menos um de seus espelhos,
dele emerge um feixe de trevas
que revela o fundo das coisas.

Em teu rosto elas podem vencer
com a beleza que nunca teriam
se por ele não tomassem força.

Como penso na carne macia
desse delicado veículo.

Basta que me cruze de frente
para que outras feições
tornem-se distantes.

Teu grosso lábio superior
afaga os dentes quando sorri
e enquanto se acariciam
busco lapidar em teu nariz
a perspectiva mais concreta.

Penso que inexistam milagres
e como qualquer existência
esse dom há de crescer
junto às incertezas do amor.

Por isso, escrevo tua beleza
na língua das bocas que
mastigam esse poema.

Escrevo fazendo dos olhos
um par de crianças perplexas.

Para que saibas que teu rosto
foi, ao menos por um instante,
o que não poderias saber.

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V

Com o sono dos mendigos
desprovi a importância da vitória.

Jurei compor uma ode
à indiferença e à solidão.

Uma espécie de tirania
contra o fim desse repouso.

Memória, sacrifico-te
como um cavalo ferido.

Lutarei sem condução
por dias sem retorno.

Que a luz do esquecimento
vocifere meu destino.

IV

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Ao lembrar daquela mulher
lembro da cidade onde sucumbimos
ao sangue de nossas horas.

Da revoada ao leito do mar
rugindo a garganta
da noite desperta.

No caminho de sua casa
consumíamos as calçadas
para ver raízes brotando.

Quantos impedimentos imputei,
e mesmo assim o desejo lambia
descontrolado a lâmina dos segredos.

E se havia um mar, havia um rio,
calmo como meu medo
pela fragilidade de seu corpo.

Calmo como a transformação
desse medo em um esparso
crepúsculo anil.

Em pouco tempo segui seu rastro
pelas montanhas. Soube onde
nascia aquele rio.

Escorríamos de volta.
Aquela mulher e as águas da cidade
tornaram-se a mesma coisa.

Juntos tomávamos banho
nessas águas, até que se formasse
o silêncio naquela cidade.

PENSAMENTO E DOMÍNIO

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Pintura: Odyr Bernardi

A história dos grandes homens paira entre a busca do amor, o questionamento da loucura e a luta pela solidão. Quem possui outros motivos, ainda não se tornou um deles. Tendo abandonado a religião e a superstição por completo, o desejo pela vida se torna tão ambíguo quanto a morte. O suicídio, imediato ou prolongado, será sempre uma opção para acabar com a dor, mas nunca com a vida. Ela permanece nos quadros, livros e poemas. Estes frutos da experiência são, no entanto, apenas rastros da inteligência, o retorno de uma lança fincada pelo pensamento. E é por meio dele que o homem afirma seu domínio.

III

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Essa nossa coisa enorme
agora engole a primavera.

Isso que até aqui caminhou turvo,
remexendo-se no ventre de outras estações,
foi hoje vertido num quarto inrevolto.

Amor anterior vivido à flor da terra,
temporal lambido na seiva pisada.

Cresça densa casa de vida e cubra
os lençóis com cheiro de pele,
em parte neles viveremos
para conseguir estar de pé.

Seus olhos infantes
entre falanges numeradas
me fazem declarar que o passado
começou a nos pesar, e por isso
seguimos aliados ao rumo dos segredos.

Em silêncio, em protesto, em fúria,
sei que está aqui.

II

Por anos os olhos de Rilke
forjaram o destino de meu rosto.
É pelo poema, mas também pela foto
que poetas existem.

Exposto num semblante,
o reflexo infinito da vida
detido pela câmera.

Em cada rosto fundado
um limbo de declarações.

Sobrevive na imagem de Trakl
um poltergeist de árvores mortas;
na de Pessoa um fantasma que bebe.

Nesses corpos paralelos
ruínas tombadas em frestas
mais rápidas que o olho nu.

Helder em metamorfose
na fumaça do cigarro agora o é
como o que não sei sobre mim.

Tratam-se de verdades essas
que só pertencem aos outros.