A CRUELDADE

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Certo dia
senti a fome,
mas não me levantei.

Talvez não fosse a fome,
talvez, houvesse segredos
que os homens não ousam
contar para si.

Gostaria de sabê-los todos,
mas não sei. Assim como
os seres ainda estranhos
da mesma espécie, olho para
o tempo como um primitivo.

Vi esse fundo obscuro
em todas as retinas nas quais
ousei olhar de frente. Sim,
nosso lugar é onde não sabemos.

E esperando que alguém
dissesse tais coisas,
não me levantei.

Eu cruzaria qualquer oceano
por uma única frase, leria
todas as páginas de um
livro infinito.

Mas não me levantei
e a fome que corrói
a morte do meu corpo
fez da busca uma espera.

É preciso a crueldade.

Se nas feras ela aponta
para fora, em nós mergulha.

É preciso, portanto,
ser o próprio outro
que diz sem piedade.

Pois o levantar só existe
para a carne que tem gosto
da dor que sente.

Levanto-me, sou cruel, e digo:

houvesse um deus e um diabo,
castigo e salvação seriam
o único acordo. E todo homem
que se saiba homem, jamais
saberia se está ou não
de pé.

Por isso, contra
todos os acordos,
faço de minha vida
um eterno levante.

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