SOBRE UMA FUNÇÃO DO RISO

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Duas mulheres na janela – Bartolomé Esteban Murillo [1655-1660]

Alguém canta no palco. Ligados pelo riso, eu e outro ser humano na platéia. Mas algo diverge esses corpos, estamos em planos diferentes. Para ele, riso como zombaria, para mim, nada menos que contemplação do estado em que aquele ser havia me provocado. Quando não se consegue decidir se uma experiência é boa ou ruim, e esse era o caso, nosso corpo, marcado a ferro quente pela moral, emite espasmos, começa a falhar, começa a rir. E se o corpo que falha é o próprio, rir do outro é sempre um engano. Esse é, portanto, um dos momentos mais propícios para conhecer a postura de uma pessoa. E daquele outro se desvelou um riso de julgamento que jamais poderia vir de um pensador. O meu, se pudesse falar, diria: “e por acaso existe um aplauso mais sincero que o riso público? O corpo falha de maneira incontrolável e, sabendo disso ou não, expressa da forma mais explícita que foi tocado”.

 

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