A Escola e o Caminho da Vontade

O local: Colégio Municipal Maria Isabel. A cidade: Macaé. O convite: realizar algum tipo de intervenção abordando temas como drogas, preconceito, sexualidade e família com turmas do 5º ao 9º ano. O desafio da Coordenação Geral de Políticas sobre Drogas (CGPOD) era o de abrir caminhos e construir pontes em um momento de mudanças e reestruturação da instituição; a aposta era de fazê-lo junto com os alunos, não apenas dirigindo, mas, antes de tudo, acompanhando as falas que emergiam das turmas. A escolha foi pelo formato de roda de conversa.

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As apresentações eram iniciadas com os nomes e formações dos membros da equipe, tanto as formais quanto as informais — Filosofia, Música, Medicina, Assistência Social, Poesia, Psicologia, Gestão Pública, Capoeira; estes e muitos outros campos de atuação se misturam para dar vida a atuação fomentada pela CGPOD. Em seguida era contextualizada a perspectiva da Redução de Danos, abordagem que propõe uma visão ampliada do cuidado, onde, ao invés da adoção de lógicas totalizantes (tudo ou nada) como meio de resolução, o foco se dá sobre o desenvolvimento de estratégias que visam reduzir os danos causados pelo envolvimento em situações prejudiciais, de acordo com o tempo e a capacidade de cada um. É importante ressaltar que não apenas o “problema” é visto de forma ampliada, mas também as próprias estratégias para lidar com ele. Sendo assim, estas devem envolver de maneira integrada as diferentes esferas da vida do sujeito: família, trabalho, amizades, relacionamentos amorosos, ambiente escolar.

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Abríamos então para a fala dos alunos, lançando os questionamentos: como andam hoje as relações na vida de vocês? Existe alguma que não esteja recebendo a devida atenção? Se houver, o que acham que poderia mudar? Nos primeiros momentos, a timidez era mais forte, mas com um pouco de persistência a vontade de pensar e compartilhar as questões que os acompanhavam falou mais alto. A partir dos relatos, pudemos perceber como questão principal o pouco diálogo entre as diferentes esferas citadas acima. Nenhuma grande surpresa até ai. O que nos deixou mais impressionados, no entanto, foi a abrangência e a profundidade da percepção deles sobre o que expressavam, mostrando que se havia algum obstáculo, este não estava localizado nos adolescentes. As peças que pareciam faltar nesse arranjo eram justamente, nas palavras de uma aluna do 8º ano, “paciência e respeito, isso que todo adolescente e jovem precisa”. Mais que isso, não apenas um espaço onde a fala deles pudesse ser validada pela escola ou pelos órgãos municipais, mas antes de tudo, por eles, entre eles. É pela criação dessa consistência de base que todo o resto pode se desenrolar. Infelizmente, a rotina e os compromissos fazem com que espaços como estes fiquem de lado. Alunos, professores e funcionários acabam por entrar em um ritmo onde há pouca abertura para momentos de desaceleração e mudança direção, o que reflete diretamente sobre o ambiente escolar.

Se a proposta era promover, antes de tudo, a mobilização dos alunos, coube abrir este espaço também para quem, de maneira independente, já se organiza em prol das próprias questões. Convite feito e aceito. O Coletivo Só Podia ser Preto, movimento macaense de jovens que busca afirmar a expressão da cultura negra através da fotografia e do diálogo, levou para a conversa o relato de experiência da formação de um grupo organizado autonomamente. Obstáculos, conquistas, desvios. Muitas das situações vivenciadas pelos participantes puderam ser compartilhadas e trocadas. O objetivo aqui, era de mostrar, por meio de um trabalho que já acontece e que vem ganhando território, que iniciativas como aquela são possíveis, cabendo a cada diferente coletivo a responsabilidade de analisar suas questões e desenvolver ua organização própria para dar conta delas. Aquele era um exemplo, a instigação foi: como então seria possível promover mudanças a realidade de vocês e da escola?

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E se falamos aqui em qualquer tipo de mudança não se trata de uma adequação a um modelo pronto ou de excelência onde tudo seria perfeito. O caminho é o inverso: a partir das demandas específicas da escola é que serão elaboradas saídas produzidas artesanalmente para aquela realidade, trajeto esse que não deixa de fora as controvérsias e as questões difíceis, pois é justamente falando abertamente sobre elas que se pode construir uma abordagem que não esconde a necessidade, se houver, de mudar. Se há um direcionamento, ele se encaminha para a saúde. Mas não uma saúde entendida como falta de doença ou como excesso de remédios e hospitais, uma saúde também ampliada, que se encaminha para a produção de ambientes que potencializem a expressão própria de cada sujeito sem abrir mão da coletividade.

Considerando o pouco tempo proporcionado pelo curto e disputado cronograma de final de ano, como poderíamos realizar um fechamento que expressasse as várias experiências criadas naqueles encontros e que, ao mesmo tempo, tivesse a “cara” de todos os envolvidos? Nos valendo do que inicialmente se mostrou um obstáculo, o fim de ano, surge uma proposta: registrar os alunos participantes em forma de fotografia e organizar uma exposição no evento de encerramento do colégio, que aconteceria no Teatro Municipal de Macaé. O Coletivo Só Podia ser Preto ficou responsável pelo registro das fotos e a CGPOD, junto à escola (que aqui inclui direção, orientação pedagógica e professores), articulou os horários e demais recursos.

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Como podemos avaliar a eficácia dessa ação? Acreditamos que, assim como na produção, o fechamento só pode ocorrer com a participação de todos. E mais ainda que uma avaliação, que se torna imprescindível para dar consistência e legitimidade técnica, é pela reverberação afetiva que um trabalho bem executado tem sua confirmação. E assim ocorreu. Pudemos perceber que já no segundo, e último, encontro com cada turma, todos os alunos já se mostravam à vontade para se colocar de forma mais relaxada, ficando mais integrados à roda, apropriando-se daquele espaço e tornando cada vez mais interessante a ideia lançada de realizar reuniões para que cada turma formule e reivindique suas prioridades de forma organizada. Muitos, em um outro momento, vinham nos falar sobre a vontade de desenvolver alguma atividade que tinham interesse e também sobre como repensaram alguns aspectos das próprias vidas. Houve também um questionário onde eles puderam escrever desde os sentimentos vivenciados durante os encontros, até sugestões para um futuro retorno da equipe. Nestes papéis, carregados de afetos, foi possível perceber claramente a potência de transformação de uma ação como esta. O “papo reto” e abordagens de temas “que ninguém quer falar” foram falas recorrentes.

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Foi pela prática que vimos o potencial daquele espaço se desdobrar e mostrar dimensões ainda não acessadas plenamente pelos que ali habitam. Todos os encontros só reforçaram a visão sobre o ambiente escolar como lugar fundamental de problematização de todos os temas sociais, é um espaço de formação de conhecimento, é um espaço de produção de vida. Apostamos em ações como estas, que integrem esferas cada vez mais abrangentes e heterogêneas do campo social, levando autonomia para cada local por onde passe. Acreditamos no serviço público como mediador de potencialidades já existentes nesses locais. Trata-se de uma forma de fazer e pensar que, além dos baixos custos de execução, requer um recurso simples e fundamental: vontade.

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