Cachorros não têm rede social – Interação ética do conflito

Man With Dog - Francis Bacon (1953)

Man With Dog – Francis Bacon (1953)

Alex, Bob e eu; todos em frente da casa durante a noite que já apontava alguns pingos de chuva. Em algum momento o cachorro preto se aproximou de Bob — não é nenhuma novidade naquele quintal o quanto aquele cachorro pode irritar. Ficou ali por algum tempo, mas Bob não demorou muito para fazer ele sair. Agarrou o tronco do cachorro e começou a dar algumas dentadas perto do rosto, os músculos das costas se contraiam junto com os do início das patas da frente, o pescoço se firmava com um balanço próprio, as unhas derrapavam na lama que já começava a se formar por conta da chuva; fora os rosnados, só pude constatar “eles estão lutando jiu-jitsu”. Era bem claro que o o cachorro preto estava estava apanhando, mas não havia sequer uma movimentação de contrataque. Quando pensei sobre briga, a percepção que logo nos vem é de uma agressão mútua que só termina quando um dos envolvidos está fraco demais para continuar. Fui levado longe demais por percepções comuns. Em certo ponto Bob, ainda que estivesse em uma clara vantagem, para o ataque e se afasta.

Pois bem, aqui os defensores da paz na terra e do espírito de bondade podem achar que a conclusão foi sobre a piedade e a compaixão, nada mais errado. Por duas razões. Em primeiro lugar o que estávamos vendo não era um ataque, mas um recado. Ainda sobre o jiu-jitsu, Alex seguiu, “sim, mas é pior que isso. Animais se comunicam por gestos, ações; é até ridículo você pensar um cachorro pedindo licença, a ação mais próxima para um ‘sai daqui’, dado de perto, é o que acabamos de ver”. Não era compaixão porque não era um ataque, ainda. O que nos leva a segunda razão. Não foi uma briga por um único motivo: o cachorro preto não revidou. Isso significa: não houve abertura corporal para a entrada em um conflito. Nenhuma palavra trocada, nenhum pedido de perdão. A aparente desistência de Bob se baseava em um sensibilidade que passa por uma ética corporal que não precisou de qualquer elemento externo ao acontecimento para se guiar; não se briga com quem não quer brigar, não se entra em conflito com quem não está disposto a conflitar, não por respeito, mas simplesmente porque, ainda que uma briga seja iniciada por um motivo específico (proteção de território, comida, etc) a questão do conflito é somente conflitar e não perder ou ganhar, assim, há apenas um decisão, conflitar ou fazer outra coisa. A concepção é exatamente essa: o ataque só foi uma mensagem porque não houve abertura ao conflito. Isso quer dizer: qualquer interação é conflitiva. Mas devemos lembrar que a briga é apenas uma das dimensões do conflito, dele pode emergir o cuidado, o sexo, a disputa… por isso é sempre tão ambíguo observar a troca de carinho entre animais, ações tipicamente vistas como violentas vão se mostrar.

É muito comum falar sobre linguagem simbólica e não simbólica para diferenciar humanos e animais — que em resumo dizem sobre a capacidade humana quase inesgotável de dar e modificar sentidos para uma mesma ação comunicativa — mas trata-se de um critério mal colocado. Isso porque essa interação foi abordada sob a perspectiva do mais complexo (homem) para o menos complexo (animal), determinando o último como uma limitação em relação ao primeiro. Não estou falando aqui do ainda pior “se colocar no lugar do outro”, a questão é que pensar passa por se valer das linhas de contato que aquilo possui, nem mais, nem menos. Tomar a linguagem humana como parâmetro em qualquer nível para entender a movimentação de seres que não possuem linguagem humana é querer falar pelos cachorros. Sendo assim, não seria a relação com essa corporalidade um critério muito mais concreto para conceber essa diferenciação? Ao conceber uma infinidade de códigos para dar conta das experiências, o humano acabou por criar camadas de símbolos que remetem umas às outras deixando a corporalidade como último plano, restando apenas como depósito de sintomas. A partir desse afastamento, proliferam-se práticas que insistem em conflitos unilaterais e que se sustentam quase que exclusivamente por razões exteriores a eles: briga por outra coisa, sexo por outra coisa, escrita por outra coisas, política por outra coisa. Tiranias contra outros e contra si mesmo. Resta ao corpo, ao invés de participar, se expressar e se modificar pelo conflito, seja ele qual for, se diminuir e sofrer com o deslocamento que os símbolos, claros ou obscuros, fazem exigir dele.

O conflito nunca desaparece, continua se dando mesmo por baixo de todos os panos e entre todos os corpos como condição para qualquer interação; e é por esse meio, pela vontade de conflitar como solo para a movimentação que a vida pode passar. Cachorros não têm rede social, não possuem ideais, não entendem nada sobre respeito, cachorros lutam jiu-jitsu; seja pelo consenso do totalitarismo ou pelo totalitarismo do consenso, ainda não entendemos isso muito bem.

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