O Cheiro da Sujeira

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Seguindo a interpelações cinematográficas, o encontro com um filme dessa vez gerou um poema. A opção aqui é por  não limitar nenhuma forma de expressão que surja  e assim foi. “O Cheiro do Ralo”  é um longa-metragem brasileiro de 2007 dirigido por Heitor Dhalia e baseado no livro homônimo do autor Lourenço Mutarelli.

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SUJEIRA
[Macaé, 04.08.2016]

o cheiro do ralo no fundo do poço

No ralo
cabelos caídos
misturados com gozo
formando um único bolo
de porra

embolando
partes longas e finas
que sobrevivem ainda depois da morte
misturadas com aquelas que com sorte
poderão um dia cagar

poderão um dia
produzir esses dejetos

dirigidos para as arestas rejuntadas recobertas de piso frio nos banheiros
buracos chamados de bueiros
locais sujos e imundos
protegidos pelas solas dos sapatos

o fundo do poço no cheiro do ralo

Querem fazer acreditar que seja pela gravidade
que seja pela utilidade
que seja pela praticidade
que seja pela necessidade
que ralos encontrem-se assujeitados
aos cantos
ao não visto
ao caminho desconhecido
aos mitos e lendas de seu desembocar

o poço do fundo no ralo do cheiro

Lá está, sempre esteve e sempre estará
onde os mal ditos e esquecidos sonharam e disseram

lá está, para lá escorre:

O prazer e o orgasmo das putas

A morada dos mendigos

A língua e o infinitivo dos loucos

O olhar desarmado do desconhecido

O toque profundo de quem não possui nada do tudo que vive

O erro visto como acerto necessário para percorrer uma trajetória

A passagem por vias de atrofia fincadas entre as pedras retangulares das ruas

As bandeiras desenhadas com sangue

As árvores suprahermafrodíticas gestadoras de todos os frutos

Os corpos condutivos por suor e contato

As nações governadas pelos ventos uivantes da força e liberdade que balançam árvores
e deixam folhas secas recobrindo o chão tornado-o agora um barulhento aviso
indicador de passos pesados e frios que não sabem dançar com a chegada do outono

o ralo do cheiro no poço do fundo

Um ralo vira ralo
quando fede
qualquer coisa
quanto mais real
mais suja

mais dente cerrado
mais emaranhado
mais puxado e desfiado o mundo
torcido e retorcido nas voltas
do tempo e da matéria
dos intestinos
remoendo a carne da terra
pertencente àqueles donos da escritura chamada Coragem
lavrada em lugar nenhum
e reconhecida por quase ninguém
terras que assim seguem
por demandarem como adubo
a merda mais pura
arada com as mãos

as mesmas que comem
que oferecem carinho aos amantes e filhos
que moldam os instrumentos
que rasgam a própria cara
e que por fim
arrancam raízes
nutridas umas pelas outras
na rede infinitamente conectada e indiscernida da existência

o cheiro do ralo no fundo do poço
o fundo do poço no cheiro do ralo
o poço do fundo no ralo do cheiro
o ralo do cheiro no poço do fundo

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O cheiro da merda no fundo do rabo

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